FRAGMENTAÇÃO FLORESTAL E A BIODIVERSIDADE DA AMAZÔNIA

O crescente avanço do desenvolvimento em direção da Amazônia tem sido responsável pelo acelerado processo de fragmentação das paisagens do bioma da Amazônia. Atividades agrícolas (pastagem e cultivo), incêndios florestais, construção de barragens, mineração e exploração de recursos da fauna e flora resultam na perda da biodiversidade. Para crescer de forma sustentável é preciso que as instituições governamentais e não governamentais busquem alternativas para valorizar os elementos da biodiversidade. Anseia-se que esses valores sejam considerados nas discussões voltadas para o desenvolvimento econômico e nas aplicações de educação e gestão ambiental.

Estudos sobre os efeitos da fragmentação florestal sobre a estrutura genética das espécies são importantes para o planejamento e gerenciamento de estratégias de conservação. A fragmentação de habitats é uma das mais importantes e difundidas conseqüências da atual dinâmica de uso da terra pelo homem (Brooks et al. 2002). A taxa com que o homem está alterando as paisagens naturais é muitas vezes maior do que a da dinâmica de perturbação natural dos ecossistemas (Goling e Willian 2000).

A transformação de habitats em pequenos remanescentes impõe uma grande ameaça para muitas espécies selvagens (Ricklefs 2003, Pattanavibool 2004), devido à diminuição da capacidade dos organismos em se deslocarem em decorrência das modificações ocorridas. A ocupação humana e a modificação do uso das terras, esta convertendo paisagens naturais em áreas de cultivo, pastagem e urbanização (Brooks et al. 2002; Myers et al 2000; Goling and Willian 2000; Begon et al. 1999). Com isso, restam apenas pequenos fragmentos de paisagens naturais, muitas vezes isoladas, tornando-se numa área insular entre as atividades humanas (Brooks et al. 2002). A resposta das espécies existentes nesses fragmentos dependerá da sua capacidade de sobrevivência dentro desses fragmentos (Laurence 1991). Algumas espécies conseguem se adaptar, prosperar e circular livremente nas áreas fragmentadas, ao passo que a maioria, que não consegue, sofre extinção local. Portanto, muitas vezes os remanescentes naturais são pequenos e(ou) isolados e acarretam a extinção local das espécies (Goling e Willian 2000).

A destruição de habitats resulta na fragmentação destes, aumenta a perda de habitat original, reduz o tamanho e aumenta o isolamento das manchas de habitat (Scribner et al 2001, Curtis e Taylon 2004). O perfil dos remanescentes florestais pode diferir na forma, tamanho, microclima, regime de luminosidade, solo, grau de isolamento e tipo de propriedade. Conseqüentemente, a fragmentação da floresta pode influenciar os padrões locais e regionais de biodiversidade devido à perda de micro-habitats únicos, isolamento do habitat, mudanças nos padrões de dispersão e migração e erosão do solo (Laurence 1991). Adicionalmente, os efeitos de borda, que podem alterar a distribuição, comportamento e sobrevivência de espécies de plantas e animais, serão magnificados em áreas de alta intensidade de fragmentação florestal.

As modificações nas paisagens afetam de forma diferenciada os parâmetros demográficos de mortalidade e natalidade de diferentes espécies e, portanto, a estrutura e dinâmica dos ecossistemas. No caso de espécies arbóreas, a alteração na abundância de polinizadores, dispersores, predadores e patógenos afetam as taxas de recrutamento de plântulas. Os incêndios e mudanças microclimáticas atingem de forma mais intensa as bordas dos fragmentos, alterando as taxas de mortalidade de árvores (Brooks et al. 2002). As evidências científicas sobre esses processos têm crescido nos últimos anos. No Brasil, a exploração antrópica da Amazônia tem ocasionado a perda da sua biodiversidade devido à substituição das paisagens naturais por campo agrícola, pastagens e urbanização (Klink 2005). Estima-se que já tenha perdido mais de 30 % da sua área original, e que os cenários científicos mostram uma tendência de aumento desse processo. A criação de gado, exploração da madeira, atividades relacionadas com mineração e mais recentemente com a possibilidade da expansão agrícola por causa do programa de biocombustível e geração de energia hidrelétrica incentivado pelo governo, estão entre as principais ameaças. Assim, o grande desafio dos órgãos ambientais é evitar que a floresta Amazônica tenha o mesmo destino do Cerrado e da Mata Atlântica, sobretudo porque há muitas espécies que ainda não foram catalogadas. Além do mais, a perda da biodiversidade do bioma Amazônico poderá trazer conseqüências globais.

O planejamento e manejo de reservas naturais deve necessariamente considerar os efeitos da fragmentação da floresta relacionados à persistência das espécies e dos mecanismos ecológicos. Se a área de uma reserva natural está abaixo do tamanho mínimo necessário para que seja mantida a população de uma espécie, então a espécie estará em risco de extinção nessa reserva. A fusão rápida do conhecimento científico com políticas públicas, relacionadas ao uso e ocupação do solo, é urgente para evitar uma degradação ambiental intensa e, pró-ativamente, manejar as áreas naturais que irão enfrentar grande onda de desenvolvimento no futuro. As ações econômicas, social, política e ambiental decidirão sobre o destino das espécies e dos mecanismos que sustentam a vida. Dessa forma, a sociedade deverá tomar decisões embasadas nos conhecimentos científicos e tecnológicos.

Dore e Webb (2003) analisaram um estudo de caso para determinar o valor da biodiversidade. Foi realizada uma prospecção da biodiversidade para procurar compostos químicos e informação genética produzidos por organismos silvestres e, que pudesse ter algum valor comercial, cujo preço refletisse no mercado. O comércio agrícola, a indústria farmacêutica e de cosméticos têm grande interesse nessas aplicações. Esperava-se que a prospecção fosse utilizada para determinar um valor comercial para a preservação de áreas ricas em biodiversidade. Mas, existem diversos problemas de regulamentação de direito a propriedade. Por isso, as companhias farmacêuticas freqüentemente contratam coletores. De fato, seu custo de prospecção está associado às despesas com o coletor, ficando a preservação da área para segundo plano.

Uma ampla classe de valoração, utilizada por economistas de recursos, tem sido valorar o estoque de uma espécie (Perrings et al. 1995 apud Dore e Webb 2003). Essa abordagem engloba diversos conceitos de valoração econômica, novos e antigos. A abordagem dos economistas de recursos é uma forma de valorar passo a passo uma única espécie, tentando primeiramente calcular sua biomassa. Dada a natureza do crescimento biológico, a equação logística tem sido muito utilizada para estimar a biomassa de uma espécie. A essa biomassa poderá ser atribuído um valor de diversas formas: pode ser atribuído um valor direto (de consumo) como alimento ou como uma espécie estruturante. Valores diretos de existência e herança também podem ser atribuídos à espécie. Contudo, de uma forma geral, os diferentes métodos podem ser classificados em dois grandes grupos, os métodos diretos e indiretos de valoração econômica da biodiversidade. A economia da natureza interpreta que relação ambiente-economia em termos da segunda lei de termodinâmica. A segunda lei vê a atividade econômica como um processo dissipativo. A partir desta perspectiva, a produção de bens econômicos e serviços invariavelmente requerem o consumo de matéria e energia disponíveis no ambiente. A economia necessariamente se alimenta de recursos de energia/matéria de alta qualidade (baixa entropia) para crescer e desenvolver. Isso tende a desordenar e homogeneizar a ecosfera. A ascendência da humanidade acompanhada por uma taxa crescente de degradação ambiental, resultando na perda da biodiversidade, redução dos sistemas naturais e poluição da água, ar e solo. Em suma, o paradigma dominante de desenvolvimento econômico baseado no crescimento é fundamentalmente incompatível com a sustentabilidade social e ecológica (Rees 2003).

Então a valoração da biodiversidade deve ser estudada, utilizada e difundida, sendo uma ferramenta aliada e imprescindível nas políticas econômicas e sociais. Além disso, a valoração é essencial dentro da nova visão da economia ecológica, que prevê a internalização das externalidades (positivas ou negativas). Portanto, entre o desafio de atribuir valores aos elementos da biodiversidade, reduzir os processos de fragmentação das paisagens naturais e buscar um desenvolvimento de forma sustentável, está a necessidade urgente da aplicação dos instrumentos de gestão ambiental. Inclui-se não só o estabelecimento e aplicação das leis, mas a ética em todos os setores - político, governamental, empresarial e social - para inserir nas discussões econômicas e sociais os valores ecológicos (Ricklefs 2003). Por outro lado, é preciso que haja aplicação da educação ambiental nos setores da sociedade.

Por meio da educação ambiental é possível sensibilizar as pessoas e mostrar que os seres humanos dependem do ambiente para obtenção dos recursos que necessitam para a sua sobrevivência e, principalmente, que esses recursos são finitos. Ainda, que sejam levadas as informações dos cientistas e pesquisadores a todas as camadas da sociedade, para que a mesma possa refutar os acontecimentos. Tais informações devem ser avaliadas por cada indivíduo, pois a sustentabilidade do planeta depende primordialmente da ação de todos. Entretanto, a esfera política precisa estar bem assessorada para tomar decisões corretas que contribuam para manutenção dos ecossistemas. Além disso, devemos ter ciência que nós fazemos parte da biodiversidade e, não temos a moral de sentenciar uma espécie à extinção e beneficiar outra porque a consideramos mais valiosa economicamente em relação à anterior. Para isso, torna-se necessária a mudança dos nossos valores e só assim teremos a possibilidade de ter um planeta sustentável. Dessa forma, a prática da educação ambiental como instrumento de gestão, juntamente com as políticas públicas eficientes, e governância são imprescindíveis para que o Brasil minimize e conserve seus recursos naturais.

Dentre os vários temas integrados possíveis de investigação na Amazônia, os que estão mais relacionados com o processo de gestão territorial da região são o planejamento e a implementação de territórios sustentáveis, ou seja, um mosaico de usos de terra complementares gerenciados de forma integrada que permitam conservar a biodiversidade e manter tanto a dinâmica dos processos ecológicos como a dinâmica socioeconômica de um determinado território. É necessário o manejo florestal sustentável (Litlle 2003) e a participação social (Nascimento 2003). Para isso, é preciso integrar e aplicar os conhecimentos científicos para desenvolver modelos sustentáveis de uso do território na região.

Outros mecanismos de resposta à conservação ambiental incorporam, também, a importância da agricultura familiar, a lógica dos créditos de carbono, a agricultura de floresta, o artesanato e o ecoturismo sustentável para diminuir os impactos dos produtores nessas regiões. A sustentabilidade depende de modelos alternativos de gestão ambiental. Políticas locais, regionais e federais devem convergir na mesma direção. Da prática coerente de instrumentos de educação e gestão ambiental com instrumentos econômicos de desenvolvimento (Bursztyn 2001). Assim, os recursos naturais existentes na Amazônia dependem de políticas públicas eficientes para minimizar o processo de fragmentação que ocorre na região de forma crescente. Portanto, a sociedade brasileira juntamente com as comunidades existentes na Amazônia deve atribuir valor aos elementos da biodiversidade e aplicar valores morais que possam contribuir para a sustentabilidade do planeta.

Referências Bibliográficas

Begon, M.; Harper, J. L.; Townsend C. R. 1999. Ecology: Individuals, Populations and Communities. 3ª ed. Ediciones Omega S. A. Barcelona.

Brooks, T. M.; Mittermeier, R. A.; Mittermieier, C. G.; Fonseca, G. A. B.; Rylands, A. B.; Konstnat, W. R.; Flick, P. e Hilton-Taylor, C. (2002). Habitat loss and extinction in the Hotspots of Biodiversity. Conservation Biology 16 (4): Pp. 909-923.
Bursztyn, Marcel, org. A Difícil Sustentabilidade. Rio de Janeiro, Garamond, 2001.

Dore, M. H. I e Webb. D. 2003. Valuing biodiversity: relaity or mirage. Environmental monitoriang and assessment 86. Pp 91-104.

Goling L. M.; Sutherland, W. J. 2000. Behaviour and Conservation. Cambridge University Press.

Klink, C. A.; Machado, R. B. 2005. Conservation of the Brazilian Cerrado. Conservation Biology 19(3). Pp. 707-713.

Laurance, W. F. & Yensen, E. 1991. Predicting the impacts of edges in fragmented habitats. Biological Conservation 55(1): 77-92.
Litlle, Paul E., org. Políticas Ambientais no Brasil. São Paulo, Peirópolis; Brasília, IIEB, 2003.

Nascimento, Elimar P.; Drummond, José A. (orgs.); Amazônia: dinamismo econômico e conservação ambiental. Rio de janeiro; Garamound, 2003.

Pattanavibool, A.; Dearden, P.; Kutintara, Utis. 2004. Habitat fragmentation in north Thailand: a case study. Bird Conservation International 14. Pp. 13-22.

Rees, W. E. 2003. Economic development and environmental protection: an ecological economics perspective. Environmental monitoring and assessment 86. Pp. 29-45

Ricklefs, R. E. (2003). Economia da Natureza. Ed. Guanabara Koogan, 5º Edição.

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