FUTURO do SUBJUNTIVO - ‘Se eu ver’ ou ‘se eu vir’? Veja como conjugar o futuro do subjuntivo - CRASE - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



‘Se eu ver’ ou ‘se eu vir’? Veja como conjugar o futuro do subjuntivo

Formação do FUTURO do SUBJUNTIVO
O futuro do subjuntivo indica um futuro hipotético.
É usado principalmente em orações condicionais (se…) e temporais (quando…).
Deriva-se da 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo (trocar a terminação “ram” por “r”): eles fizeram (– “ram”) > fize (+ r) = se eu fizer ou quando eu fizer; eles trouxe(ram) = quando eu trouxer; eles quise(ram) = se eu quiser…
Veja mais exemplos:

Infinitivo  – Pret. Perf. Ind. (3ª plural) = Fut. do Subj. (se ou quando…)
DIZER     – Eles disse(ram)               = disser
PÔR        – Eles puse(ram)                = puser
SER e IR – Eles fo(ram)                     = for
VIR          – Eles vie(ram)                   = vier
VER         – Eles vi(ram)                     = vir
É por isso que o futuro do subjuntivo do verbo VER fica: “se eu vir o filme”; “quando você vir o resultado do teste”; “quando nos virmos novamente”; “se vocês virem a verdade”…


CRASE?
Observação do leitor: “Lendo sua coluna, estranhei a crase na frase ‘Isso não está adequado à nossa empresa’. Favor corrigir-me se eu estiver errado, pois entendo que antes de pronome demonstrativo não se usa crase.”
Temos aqui uma pequena confusão. É correto afirmarmos que jamais ocorre a crase antes dos pronomes demonstrativos. O problema é que pronomes demonstrativos são este, esta, estes, estas, isto, isso, esse, essa…
Assim sendo, não haverá crase em:
“O diretor referiu-se a esta proposta.”
“Fazia referência a essa situação…”
Com pronomes demonstrativos, só é possível haver crase com os pronomes aquele, aquela, aqueles, aquelas e aquilo:
“O diretor referiu-se àquela proposta.”
“Fazia referência àquele fato.”
Na frase a que se refere o leitor, o que temos é um pronome possessivo: nossa. Nesse caso, quando o pronome possessivo está no feminino e no singular (minha, tua, sua, nossa e vossa), o uso do acento da crase é facultativo, porque pode haver o artigo definido ou não:
“Estamos a ou à sua disposição.”
“Isso não está adequado a ou à nossa empresa.”



LITERALMENTE existe?
Leitor afirma: “A palavra literalmente não existe. O Aurélio e o dicionário Michaelis não a registram.”
Existe sim.
Os advérbios de modo terminados em “mente” são derivados de adjetivos: rápido – rapidamente; leve – levemente; claro – claramente; suave – suavemente; literal – literalmente…
Os dicionários, em geral, só registram os adjetivos. Isso não significa que os advérbios derivados “não existam”.
Dizer que “a frase foi traduzida literalmente” significa que a frase foi traduzida “ao pé da letra”, ou seja, “sem nenhuma alteração”, “exatamente como foi escrita no texto original”.
Inadmissível é usar o advérbio “literalmente” com o sentido de “completamente ou totalmente”: “O atacante estava literalmente impedido”; “A janela está literalmente fechada”.
Pior ainda é usar “literalmente” em frases metafóricas:
“O estádio tornou-se literalmente um caldeirão”. Se fosse verdade, todos morreriam cozidos.
“Neste domingo, Neymar parou literalmente o Brasil”. Impossível, absurdo.
“Na entrevista coletiva, o técnico estava literalmente sem saco”. Sem comentários.


Brilhava OU brilhavam?
Leitora critica: “Na frase ‘era um pisca-pisca musical no qual brilhava cerca de 100 luzinhas’, o verbo brilhar pode ser usado no singular? Por quê? Porque ‘cerca de’ permite (ou exige?) que o verbo seja empregado no singular?”
Não exige nem permite. Minha querida e atenta leitora, pode ter sido apenas um erro de digitação. O verbo deveria estar no plural para concordar com o núcleo do sujeito (= luzinhas).
Quando usamos as expressões “cerca de”, “perto de”, “por volta de”, “em torno de”, o verbo deve concordar com o núcleo do sujeito (=substantivo):
“Cerca de dez alunos compareceram à aula.”
“Perto de 200 candidatos já foram reprovados.”
“Por volta de 50 inscritos desistiram.”
“Em torno de 2 mil torcedores viajaram.”
Assim sendo, o certo é “…na qual brilhavam cerca de 100 luzinhas”.


DESAFIO
Qual é a forma correta:

“A sociedade ONDE ou EM QUE vivemos…”?

As duas formas são possíveis. Eu prefiro dizer “…a sociedade em que vivemos…”

Se nós vivemos “em algum lugar”, nós podemos usar o pronome “onde”. O problema é que “sociedade” não caracteriza bem um “lugar”, por isso prefiro usar a forma “em que”. Se fosse mundo, país ou cidade, não haveria dúvida alguma de que as duas formas estariam perfeitas: “…o mundo onde ou em que vivemos”.

Erro mesmo seria dizer “…a sociedade que vivemos…”
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Aonde ou onde? Entenda as diferenças e veja dicas para não errar - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Aonde ou onde? Entenda as diferenças e veja dicas para não errar

“Esta é a rua ONDE ou AONDE fica o nosso depósito”?

O mais adequado é: “Esta é a rua ONDE fica o nosso depósito.” ONDE significa “no lugar” (=o depósito fica NA RUA).

AONDE significa “ao lugar”. Só pode ser usado com verbos cuja regência pede a preposição “a” (IR, CHEGAR, DIRIGIR-SE, LEVAR…): “Esta é a praia AONDE fomos no sábado passado” (=fomos À PRAIA).

Observe a diferença: “Esta é a cidade ONDE ela nasceu” (=ela nasceu NA CIDADE); “Este é o bairro ONDE ele mora” (=ele mora NO BAIRRO); “Esta é a sala ONDE estamos” (=estamos NA SALA); “Esta é a cidade AONDE gosto de ir nas férias” (=gosto de ir À CIDADE); “Este é o estádio AONDE fui ontem” (=fui AO ESTÁDIO); “Este é o lugar AONDE ele quer chegar” (=ele quer chegar AO LUGAR).



CÂMARA OU CÂMERA

Carta do internauta: “A língua portuguesa vive me surpreendendo. Eu sempre acreditei que CÂMARA e CÂMERA tinham significados diferentes. Após o jornal O Globo ter informado que serão instaladas câmaras de vídeo no Túnel Rebouças, recorri ao Aurélio para confirmar o equívoco. Mas lá consta o seguinte: CÂMERA variante de CÂMARA.”

Meu caro internauta, você fez muito bem em recorrer ao Aurélio. É pesquisando que muitas vezes destruímos certas “verdades” que um dia aprendemos como sendo o “certo”.

Só discordo da sua primeira afirmativa. Neste caso, não é a língua portuguesa que nos causa a surpresa. A verdade é que a palavra CÂMERA sempre foi uma variante de CÂMARA. Não são apenas o novíssimo Aurélio e o dicionário Michaelis  que fazem tal afirmação. Na edição do grande Caldas Aulete, de 1970, já estava registrado CÂMERA como variante de CÂMARA.

Isso significa, portanto, independentemente do que aprendemos um dia no nosso passado próximo ou distante, que podemos dizer “câmera de vídeo e câmera fotográfica” ou, se preferirmos, “câmara de vídeo e câmara fotográfica”.

É como costumo dizer: nem sempre é uma questão de certo ou errado, muitas vezes é uma questão de preferência, é uma questão de estilo.



Curiosidade

Você sabia que DEPREDAR nada tem a ver com PEDRA. Não existe “depedração”, mas sim DEPREDAÇÃO.

DEPREDAR significa “destruir, devastar, saquear”. Para depredar não é necessário usar pedras.





O internauta quer saber

Por que a palavra TÁXI tem acento?

TÁXI é uma palavra paroxítona terminada em “i”. Todas as palavras paroxítonas terminadas em “i” ou “is” devem receber acento gráfico: táxi, táxis, júri, lápis, tênis…



A frase “As escolas melhores colocadas na pesquisa recebem prêmios” está correta?

Está errada. São as escolas MELHOR ou MAIS BEM colocadas. Advérbio é invariável. A palavra melhor só tem plural quando é adjetivo: “as melhores escolas…”

Melhore o seu vocabulário

“Parar, suster, aguentar” é …

(a)  pairar;
(b) abranger;
(c) angariar.



Resposta: letra (a). Quando ouvimos que “uma dúvida ainda pairava no ar”, significa que ainda “existia uma dúvida”, é como se uma dúvida ainda “voava, aguentava no ar”. ABRANGER é “conter em si, incluir” e ENGARIAR é “obter, pedindo a um e a outro; alcançar, granjear, recrutar”.



Teste da semana

Que opção completa corretamente as lacunas da frase “Os motivos __________ ele não veio foram ______ explicados”?

(a)  porque / mal;

(b)  por que / mal;

(c) porque / mau;

(d) por que / mau;

(e) por quê / mal.



Resposta do teste: letra (b). A palavra PORQUE deve ser escrita separadamente sempre que pudermos substituí-la por POR QUAL, PELO QUAL, PELA QUAL… Como são os motivos PELOS QUAIS ele não veio, devemos escrever “Os motivos POR QUE ele não veio”. E se os motivos não foram BEM explicados, é porque foram MAL explicados. MAL se opõe a BEM. MAU é o adjetivo que se opõe a BOM.
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Saiba quando usar e quando evitar as palavras estrangeiras
Na nossa campanha contra os modismos, chegou a hora de analisarmos o uso excessivo dos estrangeirismos.

Por muito tempo, em nossas escolas, os professores ensinavam como “erro” o uso de galicismos (palavras de origem francesa). Era proibido falar ou escrever abajur, chofer, detalhe… Éramos obrigados a substituir por quebra-luz, motorista e pormenor. E o tempo provou que estávamos enganados. Hoje, todos nós usamos – sem culpa ou pecado – abajur, chofer e detalhe. Temos até um belíssimo réveillon, na sua forma original.

Agora o inimigo são os anglicismos. Palavras e expressões inglesas infestam e poluem a nossa fala. Temos um festival de beach soccer, play off, delivery, shopping, brainstorming, software, marketing e tantos outros.

A presença de termos estrangeiros no uso diário de uma língua não é crime nem sinal de fraqueza. Ao contrário, é sinal de vitalidade. Só as línguas vivas têm essa capacidade de enriquecimento. A forte presença do inglês na língua portuguesa é reflexo da globalização, do imperialismo econômico, do desenvolvimento tecnológico americano etc. Poderíamos citar muitas outras causas, mas há uma em especial que merece destaque: a paixão do brasileiro em geral pelas “coisas estrangeiras”. Nós adoramos a grife, o carro importado, a palavra estrangeira. Tudo dá status.

É, portanto, um problema muito mais cultural do que simplesmente linguístico.

Valorizar a língua portuguesa, sim; fechar as portas, não.

Há no congresso um projeto de valorização da língua portuguesa. Valorizar nosso idioma é louvável, mas é um absurdo criar uma lei que possa vir a punir o seu João da esquina porque escreveu hot dog em vez de cachorro-quente.

Se aprovada, será mais um péssimo exemplo de lei a não ser cumprida neste país. Quem vai fiscalizar?

Não precisamos de lei para proteger a nossa língua. Necessitamos, sim, é de recursos para melhorar o nosso ensino, investir na educação, talvez criar um Instituto Machado de Assis, semelhante ao Instituto Camões, de Portugal, e ao Instituto Cervantes, da Espanha.

E aí você me pergunta: e a Barra da Tijuca? Eu respondo: qualquer semelhança com Miami não é mera coincidência.

E é contra isso, contra os exageros, contra os modismos, que devemos lutar. A nossa crítica deve concentrar-se no ridículo, no “desnecessário”. Para que “sale”, se sempre vendemos? Por que “startar”, se podemos começar, iniciar, principiar? Se podemos entregar em domicílio, para que serve o ridículo “delivery”?

O modismo a ser criticado é esta lista imensa de palavras e expressões inglesas para as quais a nossa língua já está bem provida: beach soccer (futebol de areia), paper (documento), printar (imprimir)…

O aportuguesamento de termos estrangeiros também é uma boa saída. É só lembrar o futebol, o blecaute, o estresse, o balé, o filé, o chope, o espaguete…

E o que fazer com o dumping? Não conseguimos aportuguesar e não há em português uma palavra para traduzi-la: “é quando uma empresa faz preços abaixo do mercado para quebrar o concorrente”. É demais. Nestas horas, o termo estrangeiro é bem-vindo, pois enriquece a língua. E há outros bons exemplos: ranking, show, marketing, impeachment. São palavras devidamente incorporadas à nossa língua cotidiana.

Portanto, nada de radicalismos. É importante valorizar a língua portuguesa, mas nada de purismo e xenofobia.



TRIBUTO, TAXA e IMPOSTO

O internauta diz: “Na sua coluna você informa que taxa é ‘tributo, imposto; ou razão de juro’. No art.5, o Código Tributário Nacional distingue: ‘Os tributos são impostos, taxas, e contribuições de melhoria’. Vale dizer: tributo é gênero; impostos, taxas e contribuições de melhoria são espécies. Ou seja, taxa é tributo; mas não é imposto, que é outra modalidade de tributo.”

A definição da palavra taxa publicada nesta coluna é aquela que a maioria dos nossos dicionários apresenta.

Os meus amigos advogados já haviam me ensinado a diferença.

Usando uma linguagem mais simples para que todos nós, leigos, possamos entender:

TAXA – Tipo de tributo para o qual há uma contrapartida, a prestação de um serviço por exemplo. Nós pagamos a taxa do lixo para que a prefeitura retire o lixo; pagamos a taxa de iluminação pública para que haja iluminação nas vias públicas…
IMPOSTO – Tipo de tributo para o qual não há uma contrapartida específica. Nós pagamos Imposto de Renda porque temos renda; pagamos IPTU, porque temos uma casa, um apartamento, um terreno; pagamos IPVA, porque temos um automóvel, um barco, um avião…
 TRIBUTO – É um termo genérico. Engloba taxas, impostos e contribuições.  É tudo aquilo que pagamos para viver na “tribo”, ou seja, em sociedade. Daí o tribuno para nos representar e o tribunal para julgar os que vivem na tribo.


Qual é o plural de SEM-TERRA?

Pergunta de vários leitores: “Muitos usam a palavra “sem-terras” no singular, outros no plural. Qual é o certo?”

As palavras compostas com a preposição SEM, tipo sem-terra e sem-teto são invariáveis. Devemos dizer “os sem-terra” e “os sem-teto”.

Não seguem, portanto, a regra que manda flexionar o segundo elemento (=substantivo) quando o primeiro for invariável (=preposição): contra-ataques, vice-campeões.
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Palavras Estrangeiras - Saiba quando usar e quando evitar - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Saiba quando usar e quando evitar as palavras estrangeiras

Na nossa campanha contra os modismos, chegou a hora de analisarmos o uso excessivo dos estrangeirismos.

Por muito tempo, em nossas escolas, os professores ensinavam como “erro” o uso de galicismos (palavras de origem francesa). Era proibido falar ou escrever abajur, chofer, detalhe… Éramos obrigados a substituir por quebra-luz, motorista e pormenor. E o tempo provou que estávamos enganados. Hoje, todos nós usamos – sem culpa ou pecado – abajur, chofer e detalhe. Temos até um belíssimo réveillon, na sua forma original.

Agora o inimigo são os anglicismos. Palavras e expressões inglesas infestam e poluem a nossa fala. Temos um festival de beach soccer, play off, delivery, shopping, brainstorming, software, marketing e tantos outros.

A presença de termos estrangeiros no uso diário de uma língua não é crime nem sinal de fraqueza. Ao contrário, é sinal de vitalidade. Só as línguas vivas têm essa capacidade de enriquecimento. A forte presença do inglês na língua portuguesa é reflexo da globalização, do imperialismo econômico, do desenvolvimento tecnológico americano etc. Poderíamos citar muitas outras causas, mas há uma em especial que merece destaque: a paixão do brasileiro em geral pelas “coisas estrangeiras”. Nós adoramos a grife, o carro importado, a palavra estrangeira. Tudo dá status.

É, portanto, um problema muito mais cultural do que simplesmente linguístico.

Valorizar a língua portuguesa, sim; fechar as portas, não.

Há no congresso um projeto de valorização da língua portuguesa. Valorizar nosso idioma é louvável, mas é um absurdo criar uma lei que possa vir a punir o seu João da esquina porque escreveu hot dog em vez de cachorro-quente.

Se aprovada, será mais um péssimo exemplo de lei a não ser cumprida neste país. Quem vai fiscalizar?

Não precisamos de lei para proteger a nossa língua. Necessitamos, sim, é de recursos para melhorar o nosso ensino, investir na educação, talvez criar um Instituto Machado de Assis, semelhante ao Instituto Camões, de Portugal, e ao Instituto Cervantes, da Espanha.

E aí você me pergunta: e a Barra da Tijuca? Eu respondo: qualquer semelhança com Miami não é mera coincidência.

E é contra isso, contra os exageros, contra os modismos, que devemos lutar. A nossa crítica deve concentrar-se no ridículo, no “desnecessário”. Para que “sale”, se sempre vendemos? Por que “startar”, se podemos começar, iniciar, principiar? Se podemos entregar em domicílio, para que serve o ridículo “delivery”?

O modismo a ser criticado é esta lista imensa de palavras e expressões inglesas para as quais a nossa língua já está bem provida: beach soccer (futebol de areia), paper (documento), printar (imprimir)…

O aportuguesamento de termos estrangeiros também é uma boa saída. É só lembrar o futebol, o blecaute, o estresse, o balé, o filé, o chope, o espaguete…

E o que fazer com o dumping? Não conseguimos aportuguesar e não há em português uma palavra para traduzi-la: “é quando uma empresa faz preços abaixo do mercado para quebrar o concorrente”. É demais. Nestas horas, o termo estrangeiro é bem-vindo, pois enriquece a língua. E há outros bons exemplos: ranking, show, marketing, impeachment. São palavras devidamente incorporadas à nossa língua cotidiana.

Portanto, nada de radicalismos. É importante valorizar a língua portuguesa, mas nada de purismo e xenofobia.



TRIBUTO, TAXA e IMPOSTO

O internauta diz: “Na sua coluna você informa que taxa é ‘tributo, imposto; ou razão de juro’. No art.5, o Código Tributário Nacional distingue: ‘Os tributos são impostos, taxas, e contribuições de melhoria’. Vale dizer: tributo é gênero; impostos, taxas e contribuições de melhoria são espécies. Ou seja, taxa é tributo; mas não é imposto, que é outra modalidade de tributo.”

A definição da palavra taxa publicada nesta coluna é aquela que a maioria dos nossos dicionários apresenta.

Os meus amigos advogados já haviam me ensinado a diferença.

Usando uma linguagem mais simples para que todos nós, leigos, possamos entender:

TAXA – Tipo de tributo para o qual há uma contrapartida, a prestação de um serviço por exemplo. Nós pagamos a taxa do lixo para que a prefeitura retire o lixo; pagamos a taxa de iluminação pública para que haja iluminação nas vias públicas…
IMPOSTO – Tipo de tributo para o qual não há uma contrapartida específica. Nós pagamos Imposto de Renda porque temos renda; pagamos IPTU, porque temos uma casa, um apartamento, um terreno; pagamos IPVA, porque temos um automóvel, um barco, um avião…
 TRIBUTO – É um termo genérico. Engloba taxas, impostos e contribuições.  É tudo aquilo que pagamos para viver na “tribo”, ou seja, em sociedade. Daí o tribuno para nos representar e o tribunal para julgar os que vivem na tribo.


Qual é o plural de SEM-TERRA?

Pergunta de vários leitores: “Muitos usam a palavra “sem-terras” no singular, outros no plural. Qual é o certo?”

As palavras compostas com a preposição SEM, tipo sem-terra e sem-teto são invariáveis. Devemos dizer “os sem-terra” e “os sem-teto”.

Não seguem, portanto, a regra que manda flexionar o segundo elemento (=substantivo) quando o primeiro for invariável (=preposição): contra-ataques, vice-campeões.
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Saiba quando usar e quando evitar as palavras estrangeiras
Na nossa campanha contra os modismos, chegou a hora de analisarmos o uso excessivo dos estrangeirismos.

Por muito tempo, em nossas escolas, os professores ensinavam como “erro” o uso de galicismos (palavras de origem francesa). Era proibido falar ou escrever abajur, chofer, detalhe… Éramos obrigados a substituir por quebra-luz, motorista e pormenor. E o tempo provou que estávamos enganados. Hoje, todos nós usamos – sem culpa ou pecado – abajur, chofer e detalhe. Temos até um belíssimo réveillon, na sua forma original.

Agora o inimigo são os anglicismos. Palavras e expressões inglesas infestam e poluem a nossa fala. Temos um festival de beach soccer, play off, delivery, shopping, brainstorming, software, marketing e tantos outros.

A presença de termos estrangeiros no uso diário de uma língua não é crime nem sinal de fraqueza. Ao contrário, é sinal de vitalidade. Só as línguas vivas têm essa capacidade de enriquecimento. A forte presença do inglês na língua portuguesa é reflexo da globalização, do imperialismo econômico, do desenvolvimento tecnológico americano etc. Poderíamos citar muitas outras causas, mas há uma em especial que merece destaque: a paixão do brasileiro em geral pelas “coisas estrangeiras”. Nós adoramos a grife, o carro importado, a palavra estrangeira. Tudo dá status.

É, portanto, um problema muito mais cultural do que simplesmente linguístico.

Valorizar a língua portuguesa, sim; fechar as portas, não.

Há no congresso um projeto de valorização da língua portuguesa. Valorizar nosso idioma é louvável, mas é um absurdo criar uma lei que possa vir a punir o seu João da esquina porque escreveu hot dog em vez de cachorro-quente.

Se aprovada, será mais um péssimo exemplo de lei a não ser cumprida neste país. Quem vai fiscalizar?

Não precisamos de lei para proteger a nossa língua. Necessitamos, sim, é de recursos para melhorar o nosso ensino, investir na educação, talvez criar um Instituto Machado de Assis, semelhante ao Instituto Camões, de Portugal, e ao Instituto Cervantes, da Espanha.

E aí você me pergunta: e a Barra da Tijuca? Eu respondo: qualquer semelhança com Miami não é mera coincidência.

E é contra isso, contra os exageros, contra os modismos, que devemos lutar. A nossa crítica deve concentrar-se no ridículo, no “desnecessário”. Para que “sale”, se sempre vendemos? Por que “startar”, se podemos começar, iniciar, principiar? Se podemos entregar em domicílio, para que serve o ridículo “delivery”?

O modismo a ser criticado é esta lista imensa de palavras e expressões inglesas para as quais a nossa língua já está bem provida: beach soccer (futebol de areia), paper (documento), printar (imprimir)…

O aportuguesamento de termos estrangeiros também é uma boa saída. É só lembrar o futebol, o blecaute, o estresse, o balé, o filé, o chope, o espaguete…

E o que fazer com o dumping? Não conseguimos aportuguesar e não há em português uma palavra para traduzi-la: “é quando uma empresa faz preços abaixo do mercado para quebrar o concorrente”. É demais. Nestas horas, o termo estrangeiro é bem-vindo, pois enriquece a língua. E há outros bons exemplos: ranking, show, marketing, impeachment. São palavras devidamente incorporadas à nossa língua cotidiana.

Portanto, nada de radicalismos. É importante valorizar a língua portuguesa, mas nada de purismo e xenofobia.



TRIBUTO, TAXA e IMPOSTO

O internauta diz: “Na sua coluna você informa que taxa é ‘tributo, imposto; ou razão de juro’. No art.5, o Código Tributário Nacional distingue: ‘Os tributos são impostos, taxas, e contribuições de melhoria’. Vale dizer: tributo é gênero; impostos, taxas e contribuições de melhoria são espécies. Ou seja, taxa é tributo; mas não é imposto, que é outra modalidade de tributo.”

A definição da palavra taxa publicada nesta coluna é aquela que a maioria dos nossos dicionários apresenta.

Os meus amigos advogados já haviam me ensinado a diferença.

Usando uma linguagem mais simples para que todos nós, leigos, possamos entender:

TAXA – Tipo de tributo para o qual há uma contrapartida, a prestação de um serviço por exemplo. Nós pagamos a taxa do lixo para que a prefeitura retire o lixo; pagamos a taxa de iluminação pública para que haja iluminação nas vias públicas…
IMPOSTO – Tipo de tributo para o qual não há uma contrapartida específica. Nós pagamos Imposto de Renda porque temos renda; pagamos IPTU, porque temos uma casa, um apartamento, um terreno; pagamos IPVA, porque temos um automóvel, um barco, um avião…
 TRIBUTO – É um termo genérico. Engloba taxas, impostos e contribuições.  É tudo aquilo que pagamos para viver na “tribo”, ou seja, em sociedade. Daí o tribuno para nos representar e o tribunal para julgar os que vivem na tribo.


Qual é o plural de SEM-TERRA?

Pergunta de vários leitores: “Muitos usam a palavra “sem-terras” no singular, outros no plural. Qual é o certo?”

As palavras compostas com a preposição SEM, tipo sem-terra e sem-teto são invariáveis. Devemos dizer “os sem-terra” e “os sem-teto”.

Não seguem, portanto, a regra que manda flexionar o segundo elemento (=substantivo) quando o primeiro for invariável (=preposição): contra-ataques, vice-campeões.
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Palavras Estrangeiras - Saiba quando usar e quando evitar - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa


Saiba quando usar e quando evitar as palavras estrangeiras
Na nossa campanha contra os modismos, chegou a hora de analisarmos o uso excessivo dos estrangeirismos.

Por muito tempo, em nossas escolas, os professores ensinavam como “erro” o uso de galicismos (palavras de origem francesa). Era proibido falar ou escrever abajur, chofer, detalhe… Éramos obrigados a substituir por quebra-luz, motorista e pormenor. E o tempo provou que estávamos enganados. Hoje, todos nós usamos – sem culpa ou pecado – abajur, chofer e detalhe. Temos até um belíssimo réveillon, na sua forma original.

Agora o inimigo são os anglicismos. Palavras e expressões inglesas infestam e poluem a nossa fala. Temos um festival de beach soccer, play off, delivery, shopping, brainstorming, software, marketing e tantos outros.

A presença de termos estrangeiros no uso diário de uma língua não é crime nem sinal de fraqueza. Ao contrário, é sinal de vitalidade. Só as línguas vivas têm essa capacidade de enriquecimento. A forte presença do inglês na língua portuguesa é reflexo da globalização, do imperialismo econômico, do desenvolvimento tecnológico americano etc. Poderíamos citar muitas outras causas, mas há uma em especial que merece destaque: a paixão do brasileiro em geral pelas “coisas estrangeiras”. Nós adoramos a grife, o carro importado, a palavra estrangeira. Tudo dá status.

É, portanto, um problema muito mais cultural do que simplesmente linguístico.

Valorizar a língua portuguesa, sim; fechar as portas, não.

Há no congresso um projeto de valorização da língua portuguesa. Valorizar nosso idioma é louvável, mas é um absurdo criar uma lei que possa vir a punir o seu João da esquina porque escreveu hot dog em vez de cachorro-quente.

Se aprovada, será mais um péssimo exemplo de lei a não ser cumprida neste país. Quem vai fiscalizar?

Não precisamos de lei para proteger a nossa língua. Necessitamos, sim, é de recursos para melhorar o nosso ensino, investir na educação, talvez criar um Instituto Machado de Assis, semelhante ao Instituto Camões, de Portugal, e ao Instituto Cervantes, da Espanha.

E aí você me pergunta: e a Barra da Tijuca? Eu respondo: qualquer semelhança com Miami não é mera coincidência.

E é contra isso, contra os exageros, contra os modismos, que devemos lutar. A nossa crítica deve concentrar-se no ridículo, no “desnecessário”. Para que “sale”, se sempre vendemos? Por que “startar”, se podemos começar, iniciar, principiar? Se podemos entregar em domicílio, para que serve o ridículo “delivery”?

O modismo a ser criticado é esta lista imensa de palavras e expressões inglesas para as quais a nossa língua já está bem provida: beach soccer (futebol de areia), paper (documento), printar (imprimir)…

O aportuguesamento de termos estrangeiros também é uma boa saída. É só lembrar o futebol, o blecaute, o estresse, o balé, o filé, o chope, o espaguete…

E o que fazer com o dumping? Não conseguimos aportuguesar e não há em português uma palavra para traduzi-la: “é quando uma empresa faz preços abaixo do mercado para quebrar o concorrente”. É demais. Nestas horas, o termo estrangeiro é bem-vindo, pois enriquece a língua. E há outros bons exemplos: ranking, show, marketing, impeachment. São palavras devidamente incorporadas à nossa língua cotidiana.

Portanto, nada de radicalismos. É importante valorizar a língua portuguesa, mas nada de purismo e xenofobia.



TRIBUTO, TAXA e IMPOSTO

O internauta diz: “Na sua coluna você informa que taxa é ‘tributo, imposto; ou razão de juro’. No art.5, o Código Tributário Nacional distingue: ‘Os tributos são impostos, taxas, e contribuições de melhoria’. Vale dizer: tributo é gênero; impostos, taxas e contribuições de melhoria são espécies. Ou seja, taxa é tributo; mas não é imposto, que é outra modalidade de tributo.”

A definição da palavra taxa publicada nesta coluna é aquela que a maioria dos nossos dicionários apresenta.

Os meus amigos advogados já haviam me ensinado a diferença.

Usando uma linguagem mais simples para que todos nós, leigos, possamos entender:

TAXA – Tipo de tributo para o qual há uma contrapartida, a prestação de um serviço por exemplo. Nós pagamos a taxa do lixo para que a prefeitura retire o lixo; pagamos a taxa de iluminação pública para que haja iluminação nas vias públicas…
IMPOSTO – Tipo de tributo para o qual não há uma contrapartida específica. Nós pagamos Imposto de Renda porque temos renda; pagamos IPTU, porque temos uma casa, um apartamento, um terreno; pagamos IPVA, porque temos um automóvel, um barco, um avião…
 TRIBUTO – É um termo genérico. Engloba taxas, impostos e contribuições.  É tudo aquilo que pagamos para viver na “tribo”, ou seja, em sociedade. Daí o tribuno para nos representar e o tribunal para julgar os que vivem na tribo.


Qual é o plural de SEM-TERRA?

Pergunta de vários leitores: “Muitos usam a palavra “sem-terras” no singular, outros no plural. Qual é o certo?”

As palavras compostas com a preposição SEM, tipo sem-terra e sem-teto são invariáveis. Devemos dizer “os sem-terra” e “os sem-teto”.

Não seguem, portanto, a regra que manda flexionar o segundo elemento (=substantivo) quando o primeiro for invariável (=preposição): contra-ataques, vice-campeões.
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PAROXÍTONAS - Palavras paroxítonas terminadas em ‘em’ ou ‘ens’ não recebem acento - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Palavras paroxítonas terminadas em ‘em’ ou ‘ens’ não recebem acento

Deu no jornal: “Por causa destes cinco ítens, que causaram a reprovação…”

Observação de um leitor: “Desconheço as regras que permitam acentuar a palavra ítens.”

Eu também.

As palavras paroxítonas terminadas em “em” ou “ens” não recebem acento gráfico: jovem, jovens; ordem, ordens; nuvem, nuvens; homem, homens; modem, modens; item, itens; polens, abdomens, liquens, hifens…



O PLURAL DE BRASIL É BRASIS?

É isso mesmo.

As palavras terminadas em “il” fazem plural segundo a posição da sílaba tônica:

a)    Palavras oxítonas = a terminação “il” vira “is”: funil – funis; barril – barris; Brasil – Brasis;

b)    Palavras paroxítonas = a terminação “il” vira “eis”: projétil – projéteis; estêncil – estênceis; fóssil – fósseis.

MAGÉRRIMO ou MACÉRRIMO?

Internauta quer saber se a forma “magérrimo” já é aceitável.

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra duas formas: magérrimo e macérrimo.

O dicionário Aurélio registra, mas classifica “magérrimo” como um superlativo anormal.

O dicionário Michaelis também registra. Classifica “magérrimo” como anormal e diz que o certo é macérrimo.

Não é uma questão de certo ou errado. As duas formas são aceitáveis.

A forma “magérrimo” é característica da linguagem coloquial brasileira. Sem dúvida, é a variante mais usada.

Em textos formais, que exijam o padrão culto, o melhor é usar macérrimo.

FEMURAL ou FEMORAL?

Comentário de um leitor: “Na reportagem sobre a internação de um artista, o texto explicativo e o desenho ilustrativo do procedimento médico de cateterismo para a cinecoronariografia indicam a artéria “femural”, quando o correto é FEMORAL”

O nosso leitor está certíssimo. Embora o osso da coxa seja o FÊMUR com “u”, o adjetivo a ele relacionado deve ser escrito com “o”, ou seja, o certo é FEMORAL.

ATEMPORAL ou INTEMPORAL?

Internauta quer saber se a palavra ATEMPORAL está errada, pois, segundo ele, não encontrou em nenhum dicionário pesquisado.

Até bem pouco tempo, ensinava aos meus alunos que, embora a forma ATEMPORAL fosse de uso corrente, o certo era usar o adjetivo INTEMPORAL. Mas a língua é viva…

O novo dicionário Aurélio e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras, já registram a palavra ATEMPORAL.

Assim sendo, não se considera “erro” o uso do adjetivo ATEMPORAL. Temos oficialmente as duas opções: INTEMPORAL ou ATEMPORAL. Você decide.

IR A ou IR PARA?

Leitor quer saber qual é a distinção entre “eu vou a São Paulo” e “eu vou para São Paulo”.

As duas formas são corretas. A regência do verbo IR aceita tanto a preposição “a” quanto a preposição “para”. A diferença é semântica, ou seja, há uma pequena alteração no sentido da frase.

O uso da preposição “a”, nesse caso, dá uma ideia de “transitoriedade”, de algo “passageiro”; a preposição “para” dá uma ideia de “permanência”, de algo “definitivo”.

Se você viajar a São Paulo, eu imagino uma viagem a serviço, que você vai e volta no mesmo dia, que se trata de uma viagem rápida.

Caso você viaje para São Paulo, eu posso imaginar que você foi transferido e vai ficar morando em São Paulo ou que se trata de uma viagem longa, sem data para voltar.

É interessante observar que, na linguagem popular, quando alguém é demitido ou um jogador é expulso de campo, dizemos que ele “foi pra rua” ou “foi pra fora”. É a ideia de “coisa definitiva”, e não transitória.

Assim sendo, no seu trabalho, uma “saidinha” é “ir à rua”. Quem “vai pra rua” geralmente não volta. É como a garotada que vai “pra noite” ou “pra praia”. É quem não tem hora para voltar.

É a velha dúvida de quem não sabe se manda alguém “a” ou “para” algum lugar.
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É preciso usar moderação para compreender a língua portuguesa - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



É preciso usar moderação para compreender a língua portuguesa

Muitos leitores que me questionam sobre o fato de frequentemente eu afirmar que determinada dúvida não se trata de um problema do tipo certo ou errado.

Em razão disso, vou reproduzir uma coluna já publicada aqui.

O primeiro destaque é o professor Walmírio Macedo, mestre a quem muito respeito. Tive a honra de merecer um fax que é um verdadeiro tratado sobre o ensino da nossa querida língua portuguesa.

Reproduzo aqui alguns trechos para que os leitores possam tirar suas próprias conclusões:

“Passou-se a defender que tudo é certo. O mal que esse tipo de colocação provocou no ensino da Língua Portuguesa no Brasil foi muito grande, pois criou um desinteresse geral pelos estudos da língua propriamente dita, colocando nas escolas no seu lugar o estudo de conceitos linguísticos. Infelizmente, isso causou um atraso. É bem verdade que vivíamos uma época de exagerado ensino gramatical, de ensino da gramática pela gramática. Mas a substituição foi pior. Graças às colunas de Língua Portuguesa, o interesse pelos estudos da língua parece retornar ou reavivar.

Não se pode nem se deve ser radical em nenhum campo da vida humana. Todo usuário da língua tem de se preocupar em conhecer os elementos mínimos que lhe ofereçam a opção de uma linguagem padrão oficial, geral. Como temos de usar determinadas roupas para determinadas ocasiões, temos de ter a nossa linguagem, a linguagem apropriada. Dessa forma, o conceito de correto e incorreto pode coincidir com o de adequado e inadequado.”

O segundo destaque é o nosso querido mestre Evanildo Bechara. Vejam o que ele disse a respeito do conceito de certo e errado:

“Até bem pouco tempo, a língua foi vista como um organismo homogêneo e unitário, e a linguística veio mostrar que não, que a grande característica da linguagem humana é a variedade, porque ela acompanha o homem e, como o homem não é igual numa mesma sociedade, a sua expressão linguística não pode ser igual. Então os linguistas procuram mostrar que a linguagem se caracteriza pela sua multiplicidade de realidades.

Então, o que é correto na língua? É tudo aquilo que está de acordo com uma tradição. Correto é tudo que está na norma de uma realidade. Ora, como na língua há diversas realidades, uma língua não é um sistema, é um conjunto de sistemas, cada sistema tem a sua norma. Se existe uma comunidade que diz “chegar em casa”, essa é a norma da comunidade; se existe uma outra comunidade que diz “chegar a casa”, essa é a norma.

Agora, em casa nós comemos peixe e carne com o mesmo talher, bebemos água e vinho no mesmo copo. Essa é a norma. Mas, se formos a um restaurante sofisticado, encontramos o copo de vinho, o copo de água, o talher de carne, o talher de peixe. O que isso significa? Isso significa que acima das normas, existe a etiqueta social. Então, o que é correto? A palavra correto já não serve. A palavra que se vai usar é exemplar. E o que é exemplar? Exemplar é aquilo que você, como pessoa de cultura, está condicionado a usar: “chegar a casa”; “faz dez anos”; “deram 10h”. Isso não é correto nem incorreto, é o exemplar. É aquilo que pessoas, através das gerações, escolheram como modelos exemplares. E onde está essa exemplaridade? Está nas boas gramáticas, nos bons dicionários, e no uso efetivo dos escritores modelares, nos escritores clássicos.”

Aqui estão as opiniões de dois grandes estudiosos da nossa língua.

Como todos podem observar, nada de radicalismos. É por isso que, sempre que possível, tento fugir do tradicional conceito do certo e errado.

Prefiro a moderação, o conceito de adequação. Isso não significa aceitar o “erro”. Isso significa analisar caso a caso, ter bom senso, ver que determinados fatos linguísticos podem ser adequados em certas situações, observar com mais atenção os casos polêmicos, estar atento às transformações da língua, ouvir os especialistas e ter a humildade de pedir a opinião dos seus leitores.

Em qualquer festa, um croquete bem feito tem seu valor.



CRASE?

Internauta quer saber se na frase “…sua competência aliada a forte dose de bom humor tem contribuído para melhorar meu desempenho profissional…” está faltando o acento da crase.

Ela pergunta: “em aliada a forte dose de bom humor, usa-se ou não a preposição?”

Há preposição, mas não ocorre a crase: “…aliada a forte dose de bom humor…”

A preposição “a” é exigência do adjetivo “aliado”: aquilo que está aliado está aliado “a” alguma coisa.

Não ocorre crase por falta do artigo definido feminino “a”. A tal “forte dose de bom humor” está usada num sentido genérico (= sem artigo definido). É como se fosse: “sua competência está aliada a uma forte dose de bom humor”. Repare na ausência de artigo definido, caso fosse um substantivo masculino: “…sua competência está aliada a forte empenho…”

Portanto, não ocorre a crase porque temos apenas a preposição “a”.



Avaliação técnica-econômica ou técnico-econômica?

O correto é “avaliação técnico-econômica”.

Quando temos um adjetivo composto, somente o segundo elemento se flexiona: “candidatos social-democratas”, “olhos azul-claros”, “questões luso-brasileiras”, “problemas político-econômicos”…


Fonte: G1 Dicas de Português 
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ESTRANGEIRISMO - Entenda os argumentos a favor e contra o uso de estrangeiros - O USO DOS ESTRANGEIRISMOS - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Entenda os argumentos a favor e contra o uso de estrangeiros

O USO DOS ESTRANGEIRISMOS

Quando o assunto são os estrangeirismos, é briga na certa. Metade a favor, metade contra.

Como eu mesmo já disse várias vezes, é muito difícil ser moderado nesta terra. Consegue-se desagradar aos dois lados.

Os puristas radicais querem que eu assuma uma posição mais firme contra a invasão de termos ingleses. Chegam a propor leis como a que existe na França, que proíbe o uso de termos estrangeiros.

No outro extremo, estão aqueles que “topam tudo”, que adoram um atendimento VIP, assistir a um talk show, ver o replay da jogada, dar um clik, fazer um check-up, ser um bad boy ou talvez um gay, sugerir um brainstorm, pedir um briefing, fazer um coffee break, sair para a night e ficar no maior love.

Uma leitora que é contra o uso excessivo dos anglicismos criou, com muita ironia, um convite cheio de palavras e expressões inglesas tão usuais entre nós.

Por falta de espaço, vou reproduzir apenas alguns trechos do texto:

“Faço um convite a todos que amam a língua portuguesa (…)  passarmos um weekend juntos em qualquer point (…) na praia, sem topless (…) assistir a um jogo de beach soccer (…) beber um ice tea. (…) ler no jornal o que há de novo no setor de business ou ler a coluna de alguma socialite (…) e saber o que está in ou out no momento. Na hora do almoço, uma comidinha light, com um refrigerante diet (…) ao lavar as mãos, não esqueça que push é empurre (…) e na hora da conta pagar cash em vez de usar ticket. Após (…) no carro com air bag, parar num self service e aproveitar o oil express (…). Iremos a um shopping (…) assistiremos a um filme com happy end (…) comeremos um hot dog… Ao sairmos, devemos procurar por EXIT. Podemos também ir a uma livraria (…) comprar um best seller (…) ler numa revista especializada sobre os designers de novos carros (…) descobrir o hobby de um pop star (…) ou o show de algum cover…

Sei que será difícil, mas nada que um bom trabalho de marketing não resolva. Poderemos criar um poderoso slogan e um jingle bem divertido. Isso sem contar nos outdoors espalhados pelo país. All right?”

Não é preciso um esforço sobrenatural para comprovarmos a abusiva presença de palavras inglesas na nossa linguagem cotidiana. Algumas são inevitáveis e consagradas como topless, show e marketing. A maioria, entretanto, é puro modismo.

Impossível é criar uma regra. É muito subjetivo. Que palavras ou expressões estrangeiras são aceitáveis? Quais devem ser traduzidas? Play off ou “melhor de três” ou “fase decisiva” ou “mata-mata”? Shopping ou centro comercial? Know how ou “conhecimento”? Topless ou “???”? E quais devem ser aportuguesadas? Black out ou blecaute? Layout ou leiaute? Stress ou estresse? Air bag ou “erbegue”? On-line ou “onlaine”?

Não vejo uma solução definitiva. É briga na certa.

Por isso tudo, mantenho a minha posição moderada. Nada de radicalismos. Cada caso merece uma análise individual.

Em geral adoto o seguinte critério: 1o) se for possível, a tradução: futebol de areia (beach soccer), autoatendimento (self service); 2o) se for possível, o aportuguesamento: blecaute, estresse; 3o) se não for possível traduzir nem aportuguesar, a palavra estrangeira é bem-vinda: dumping, ranking, software, marketing…

BIFÊ ou BUFÊ?

A língua francesa forneceu um grande número de palavras à língua portuguesa. A maioria já foi devidamente aportuguesada. Assim, a palavra francesa buffet foi aportuguesada para bufê (= escreve-se com “u” pronunciado como “u” mesmo).

A realidade, porém, é que no Brasil existe uma incontestável preferência pela forma original francesa: buffet. Será que temos aqui algum tipo de preconceito? Do tipo BUFÊ é coisa de pobre? Espero que não.

Vejamos outras palavras francesas que já foram aportuguesadas: avalancha, boate, batom, buquê, balé, cabina, camionete ou camioneta, chassi, chique, conhaque, guidom ou guidão, marrom, vermute…

DESINTERIA ou DESENTERIA ou DISENTERIA?

Carta do leitor: “Navegando pela sua página, observei um pequeno equívoco. Assim está escrito: ERRADO: ‘Estava com desinteria’. CERTO: ‘estava com desenteria’. Não seria disenteria?”

O nosso leitor está certíssimo. O mau funcionamento dos intestinos, a inflamação intestinal é DISENTERIA.

O prefixo “dis” significa “dificuldade, mau funcionamento”. É o mesmo que aparece em DISFAGIA (=dificuldade na deglutição, para comer); DISPEPSIA (=dificuldade de digerir, na digestão); DISLALIA (=dificuldade na fala, na dicção); DISPNEIA (=dificuldade na respiração); DISRITMIA (=distúrbio de ritmo)…

É importante lembrar que o estudo do intestino e das suas funções é a ENTEROLOGIA (do grego énteron = interior, intestino). Daí o famoso o enteroviofórmio, aquele “remedinho” de tristes lembranças.

MADRUGADA DE DOMINGO ou DE SÁBADO PARA DOMINGO?

É comum ouvirmos: “O jogo será na madrugada de sábado para domingo.”

Rigorosamente não existe madrugada de sábado para domingo.

Basta dizer: “O jogo será na madrugada de domingo.” Madrugada é o intervalo de tempo correspondente às últimas horas da noite, antes do nascer do Sol (=entre a meia-noite e, aproximadamente, as 6h da manhã).
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LÍNGUA BRASILEIRA - Existe ‘língua brasileira’? - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Afinal, existe ‘língua brasileira’?

Vou tentar responder objetivamente e com a maior simplicidade possível. Aqui no Brasil nós ainda falamos a língua portuguesa. Temos, na minha opinião, um falar brasileiro, que seria um modo brasileiro de usar a língua portuguesa.

É importante lembrar o que afirmaram alguns estudiosos: o professor Antenor Nascentes não falava em língua brasileira e sim em “idioma nacional”; o mestre Gladstone Chaves de Melo falava em língua comum e variantes regionais; e o grande filólogo Serafim da Silva Neto afirmou que o português culto do Brasil é quase igual ao português culto de Portugal. Isso significa, portanto, que as diferenças maiores estão na linguagem do dia a dia.

No livro A língua portuguesa e a unidade do Brasil, o mestre Leodegário de Azevedo Filho resume bem: “Em poucas palavras, existe unidade na variedade de normas e de usos linguísticos. E isso porque, se os morfemas gramaticais permanecem os mesmos, a língua não mudou, a despeito de qualquer variação de pronúncia, de vocabulário ou mesmo de sintaxe.”

O que existe na verdade são variantes linguísticas:

a)    variantes geográficas: nacionais (Brasil, Portugal, Angola…) e regionais (falar gaúcho, mineiro, baiano, pernambucano…);

b)    variantes socioeconômicas (vulgar, popular, coloquial, culto…);

c)    variantes expressivas (linguagem da prosa, linguagem poética).

Quem estiver interessado em ver o assunto analisado com maior

profundidade poderá consultar os respeitadíssimos Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, e a Moderna Gramática Portuguesa do nosso querido e eterno mestre Evanildo Bechara.

O importante mesmo é respeitar as diferenças, sejam fonéticas, semânticas ou sintáticas. Vejamos rapidamente algumas diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal.

Uma diferença fonética bem perceptível é a pronúncia das vogais. Aqui no Brasil, nós pronunciamos bem todas as vogais, sejam tônicas ou átonas. Em Portugal, a tendência é só pronunciar bem as vogais tônicas. As vogais átonas são verdadeiramente átonas (=fracas). Uma consequência disso é a colocação dos chamados pronomes átonos (me, te, se, o, lhe, nos…). Em Portugal, por ter a pronúncia fraca, não se põe o pronome átono no início da frase: “Dê-me um cigarro”; no Brasil, como as vogais átonas são pronunciadas como se fossem tônicas, não temos nenhuma dificuldade em pôr os pronomes átonos no início da frase: “Me dá um cigarro”. É assim que o brasileiro fala. E quando me refiro ao brasileiro, estou falando do brasileiro em geral, de todos os níveis sociais e culturais. Não estou fazendo referência ao “povo” com aquela conotação pejorativa e discriminatória que alguns ainda atribuem à palavra. Absurdo é considerar “erro” o uso dos pronomes átonos no início da frase.

Diferenças semânticas existem muitas. Algumas famosas já viraram até piada. Em Portugal, “uma bicha enorme” não é nada mais do que “uma fila imensa”, sem nenhuma outra conotação que algum brasileiro queira dar.

E diferenças sintáticas também existem. No Brasil, nós preferimos o gerúndio (“Estamos trabalhando”); em Portugal, preferem o infinitivo (“Estamos a trabalhar”). No Brasil, gostamos da forma “você”; em Portugal, usam mais o pronome “vos”: “Se eu lesse para você” e “Se eu vos lesse”. Aqui “falar consigo” é “falar com si mesmo”; em Portugal “falar consigo” é “falar com você”. Em Portugal, é frequente o uso de “mais pequeno”; no Brasil, aprendemos que o certo é falar “menor”, que “mais pequeno” é “errado”.

E assim voltamos ao ponto de partida: a eterna briga do certo e do errado. Espero que me perdoem pela repetição, mas não é uma questão simplista de certo ou errado. É uma questão de adequação. Usar “mais pequeno” no Brasil é tão inadequado quanto iniciar uma frase com um pronome átono em Portugal.

Por que eu teria de afirmar que alguém está falando “errado” quando o carioca fala “sinal”, o paulista prefere “farol” e o gaúcho usa “sinaleira”? Afinal das contas, é tudo semáforo.



Segue ANEXO ou ANEXA?

O termo ANEXO é um adjetivo. Deve, portanto, concordar em gênero e número com o substantivo a que se refere:

Segue anexo o relatório;

Segue anexa a nota fiscal;
Seguem anexos os relatórios;
Seguem anexas as notas fiscais.
Em textos que exijam uma linguagem formal, alguns autores sugerem que evitemos o uso da expressão “em anexo”. Isso é uma questão de preferência, e não de certo ou errado.



Não sabia o que FIZESSE ou o que FAZER?

Pergunta de leitor: “No interior do Maranhão e no Nordeste em geral, dizemos ‘Eu não sabia o que fizesse’. No Rio e no Sul geralmente dizem ‘Eu não sabia o que fazer’. Cheguei a pensar que esta última fosse a expressão correta, mas José de Alencar (nordestino), no romance Senhora (Coleção Prestígio-Ediouro-33ª edição-1996-página 126, linha 13), pelo menos duas vezes, emprega o “fizesse”. Qual é a forma correta?”

Não é uma questão de certo ou errado. Você mesmo já descobriu a resposta. Temos aqui uma construção típica da fala nordestina. José de Alencar talvez tenha sido o primeiro autor brasileiro a se preocupar com a linguagem brasileira. Em sua vasta obra literária, é frequente a presença de algumas estruturas típicas do português falado no Brasil.

É importante lembrar, entretanto, que num texto em que se exija a linguagem padrão, devemos usar o infinitivo: “Eu não sabia o que fazer”.
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CRASE - Conheça os sete pecados da crase - Pecados mortais da crase - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Conheça os sete pecados da crase

Os sete pecados mortais da crase

Do meu eterno mestre Édison de Oliveira, em Todo mundo tem dúvida, inclusive você.

É impossível haver crase:

1º) antes de palavra masculina: “Ele está no Rio a serviço”;

2º) antes de artigo indefinido: “Chegamos a uma boa conclusão”;

3º) antes de verbo: “Fomos obrigados a trabalhar”;

4º) antes de expressão de tratamento: “Trouxe uma mensagem a Vossa Majestade”;

5º) antes de pronomes pessoais, indefinidos e demonstrativos: “Nada revelarei a ela, a qualquer pessoa ou a esta pessoa”;

6º) quando o “a” está no singular, e a palavra seguinte está no plural: “Referimo-nos a moças bonitas”;

7º) quando, antes do “a”, existir preposição: “Compareceram perante a Justiça”.



Estamos “a sua disposição”  ou  “à sua disposição”?

É um caso facultativo. Antes dos pronomes possessivos (minha, tua, sua nossa…), o uso dos artigos definidos é facultativo: “Este é o meu carro” ou “Este é meu carro”; “Aquela é a minha sala” ou “Aquela é minha sala”.

Assim sendo, quando houver a preposição “a” antes de um pronome possessivo feminino singular, restará a dúvida cruel: existe ou não o artigo feminino singular “a” e, consequentemente, a crase? Como o uso do artigo antes do pronome possessivo é facultativo, o uso do acento da crase também o será: “Estamos à sua disposição” ou “Estamos a sua disposição”.

Podemos comprovar tudo isso comparando com a forma masculina: “Estamos ao (= preposição “a” + artigo masculino “o”) seu dispor” ou “Estamos a (= só preposição) seu dispor”.



Mesmo os doentes PARECE ou PARECEM que estão felizes?

                    O certo é: “Mesmo os doentes PARECE que estão felizes.” O sujeito do verbo PARECER é a segunda oração (=que mesmo os doentes estão felizes).

Em ordem direta, temos: “PARECE que mesmo os doentes estão felizes”. É interessante observar que o termo “os doentes” é o sujeito da segunda oração, do verbo ESTAR (=os doentes estão felizes).



Ele DISSE ou TINHA DITO que chegaria cedo, mas chegou às 5h?

A diferença entre DISSE e TINHA DITO é o tempo verbal: DISSE está no pretérito perfeito e TINHA DITO, no pretérito mais-que-perfeito do indicativo.

O pretérito perfeito indica uma ação concluída no passado: “Ele disse, saiu, fez…”; o pretérito mais-que-perfeito indica uma ação anterior a outra ação que já está no passado: “Quando eu cheguei (pretérito perfeito = ação já passada), ele já tinha dito ou dissera ou havia dito, tinha saído ou saíra ou havia saído, tinha feito ou fizera ou havia feito (pretérito mais-que-perfeito = ação anterior à ação já passada)”.

Assim sendo, quanto à pergunta do nosso leitor, o mais adequado é: “Ele tinha dito que chegaria cedo, mas chegou às 5h”. A ação de “dizer” é anterior a ação de “chegar”. O pretérito mais-que-perfeito é o passado do passado.



VIETNÃ ou VIETNAM?

“Por que alguns jornais insistem em grafar o nome do Vietnã na forma usada em inglês Vietnam? Os dicionários que consultei registram até uma variante Vietname, com “e” no final, mas nunca na versão inglesa?”

Meu caro leitor, a grafia de nomes próprios é sempre um assunto polêmico. É briga sem fim. No meio jornalístico, não há tempo a perder. É por isso que cada jornal cria seus padrões. Não estamos, portanto, querendo dizer esta forma seja a correta e que aquela outra esteja errada. É apenas a nossa preferência.

No caso do Vietnam, a nossa preferência se deve ao adjetivo pátrio. Se falamos vietnamita com “m”, e não “vietnanita”, considero o mais lógico é escrever Vietnam com “m”. Só isso.



OS TUPI ou OS TUPIS?

Reclamação do leitor: “Outro dia escrevi um e-mail questionando o não uso de concordância nominal nos nomes de grupos indígenas no livro de Eduardo Bueno. Infelizmente não obtive resposta.”

É outro assunto polêmico. Os estudiosos das coisas indígenas afirmam que os nomes das nações indígenas não apresentam plural na sua forma original. Deveríamos dizer os tupi, os goitacá, os pataxó, os caeté…

Há, entretanto, aqueles que defendem o aportuguesamento e consequente respeito às nossas regras gramaticais.

Como as línguas indígenas são ágrafas (= sem escrita), a forma escrita só pode ser aportuguesada. Em razão disso, minha preferência é os tupis, os goitacás, os pataxós, os caetés…
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Hífen - Saiba quando usar o hífen para separar palavras iniciadas com ‘mini’ - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Saiba quando usar o hífen para separar palavras iniciadas com ‘mini’

1a) “Devemos mesmo escrever todas as palavras com o “mini” incorporado à palavra ou separado sem hífen ou com hífen?”

Segundo o novo acordo ortográfico, só há hífen quando MINI antecede palavras iniciadas por H ou vogal igual (i): mini-hospital, mini-internato…

Nos demais casos, o elemento “mini” deve ser usado sempre “junto”, sem hífen: minissaia, minissérie, miniusina, minirreator, minidesvalorização, minibar, minienvelopes, minipãezinhos…

2a) “Noventa por cento do paisagismo, desenhado por Roberto Burle Marx, já foi restaurado. O correto não seria já foram restaurados?”

A concordância com as percentagens é um tema bastante polêmico. Há quem prefira a concordância com o número percentual: “Noventa por cento do paisagismo foram restaurados”; e aqueles que preferem a concordância com o especificador: “Noventa por cento do paisagismo foi restaurado”. Não é, portanto, uma questão de certo ou errado. É uma questão mais de estilo ou preferência. A minha constatação é que hoje há uma visível preferência pela concordância com o especificador: “Sessenta por cento da população já foi vacinada”, “Um por cento das crianças foram vacinadas”.

3a) “Está certo dizer ‘tenho soltado todos os pássaros engaiolados que encontro’ e ‘o delegado havia soltado ontem esse ladrão’?”

Está corretíssimo. Para os verbos que apresentam particípios abundantes (=solto e soltado, aceito e aceitado, entregue e entregado, suspenso e suspendido…), devemos adotar a seguinte regra: a) com os verbos ter e haver, devemos usar a forma regular terminada em “-ado” ou “-ido”: “tinha ou havia soltado os pássaros”, “havia aceitado o convite”, “tinha entregado os documentos”, “tinha ou havia suspendido os jogadores”… b) com os verbos ser ou estar, devemos usar a forma irregular: “os pássaros foram soltos”, “o convite foi aceito”, “os documentos serão entregues”, “os jogadores estavam suspensos”…

4a) “Já vi escrito num livro de português adeqúo e argúo. Acredito na existência dessas formas, pois, em certas situações, não há outra opção.”

Rigorosamente, o verbo adequar é defectivo, ou seja, não apresenta algumas formas. Para a maioria dos estudiosos não existe a forma “adeqúo”. A solução é substituir por um verbo sinônimo ou expressão equivalente: em vez de “eu me adeqúo à atual situação”, poderia ser “eu já estou adequado à atual situação” ou “estou me adequando à atual situação”.

O verbo arguir não é defectivo. A 1ª pessoa do singular do presente do indicativo é “eu arguo”. O detalhe é que não há acento agudo na vogal “u”, embora a sílaba tônica seja a penúltima (=”gu”). Devemos pronunciar “arguo”.



PÊGO, PEGO ou PEGADO?

Dúvida do leitor: “Na minha juventude nunca ouvi alguém falar que “foi pêgo”. Agora, a TV (Rio e São Paulo passam o tempo falando essa asneira. Até o jornal que se acha o melhor do país, que é a F. São Paulo, caiu nessa). Sob a minha óptica, respaldado no Caldas Aulete e no Delta Larouse, pêgo é uma ave. Para mim, o Aurélio é um dicionário popular da língua portuguesa. É bom tê-lo para tirar dúvidas, mas com visão crítica.”

Meu caro leitor, eu também aprendi na minha juventude que o particípio do verbo pegar era somente pegado: “Ele tinha pegado os documentos”, “Ele foi pegado em flagrante”.

O problema é que as línguas são vivas, elas evoluem, elas se transformam. E isso não é um fenômeno exclusivo da língua portuguesa. O difícil é estabelecer um critério para aceitar ou não as novidades linguísticas.

Entretanto é fato que a forma pego (“pêgo” em algumas regiões e “pégo” em outras) está consagradíssima. Hoje há registros em várias obras da nossa literatura e nos estudos de muitos especialistas.

Sugiro que você, meu caro leitor, não sofra tanto, senão terá que procurar algum cardiologista. Que fique bem claro: se usarmos a forma pegado, estamos falando corretamente. Quanto à forma pego, é perfeitamente aceitável na fala coloquial e discutível em textos que exijam o chamado padrão culto da nossa língua. Inaceitável é exigir que o candidato ao vestibular, por exemplo, saiba se o gramático Fulano de Tal considera  a forma pego “certa” ou “errada”.



POR QUE ou POR QUÊ?

Pergunta de leitor: “Reforma Agrária, por que? ou Reforma Agrária, por quê?”

Segundo as nossas regras ortográficas, a palavra que, no fim da frase, interrogativa ou não, torna-se tônica. Daí a necessidade do acento circunflexo: “Reforma Agrária, por quê?”
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Certo’ e o ‘Errado’ na língua portuguesa - SÔGROS ou SÓGROS? - 1º) alejado ou aleijado? 2º) bandeja ou bandeija? 3º) colisão ou colizão? 4º) coalisão ou coalizão? - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa


O ‘Certo’ e o ‘Errado’ andam lado a lado na língua portuguesa

É importante lembrarmos que a normatização da linguagem corresponde, em geral, ao jogo do certo ou errado. Assim sendo, a norma é a regra daquilo que pode ou não ser usado na língua oral ou escrita. O perigo é transformar o conhecimento destas regras num mecanismo para discriminar os que não as dominam.

A norma é a marca do chamado padrão culto da língua, que é apenas uma das variantes linguísticas. O professor André Valente, em A linguagem nossa de cada dia, afirma: “Não há, em essência, variante linguística que seja superior a outras. Existe, sim, a que tem mais força e prestígio, a variante dos detentores do poder: da elite (econômica, política ou intelectual).”

Quanto aos gramáticos, é sempre bom lembrar que não há uniformidade de pensamento. Eles próprios não estão de acordo sobre o que significa correção na língua falada ou escrita. Há dois extremos perigosos: o conservador, que toma como padrão os textos considerados clássicos da nossa literatura, e o anárquico, que aceita tudo, que considera a língua um organismo que se desenvolve com total liberdade, abandonando completamente o conceito do certo ou do errado.

Entre o conservador e o anárquico, está o moderado. Eu, por exemplo. E como é difícil ser moderado!

Ser moderado é respeitar a tradição gramatical, quando há consenso entre os estudiosos, e estar com a mente aberta para as novidades, para os novos conceitos. Se a língua é viva, ela evolui, ela se transforma. Radicalizar é perigoso. E é impossível “engessar” qualquer língua.

Sou defensor do conceito da “aceitabilidade”, mas tenho total consciência de que é muito difícil estabelecer o que é obrigatório, o que é facultativo, o que é inapropriado, o que é grosseiro, o que é inadmissível…

Vamos ver um exemplo. Na minha opinião, o uso da expressão “a gente”, em vez do pronome “nós” é aceitável em qualquer texto coloquial. Na sentença de um juiz, em que a sociedade exige uma linguagem formal, a chamada linguagem “culta ou padrão”, o uso de “a gente” seria inapropriado, inadequado. Tão inadequado quanto eu dizer “ela esteve aqui conosco” num bate-papo informal na beira da praia. Como já disse outras vezes, “conosco” na beira da praia mais parece nome de biscoito: “Dá um conosquinho aí”.

Sei muito bem que o assunto é polêmico e que não se esgota com facilidade.



SÔGROS ou SÓGROS?

Carta de leitor: “Na sua coluna foi dito que certas palavras sofrem metafonia quando vão para o plural, tendo-se dado exemplos fogo, porco e sogro. Ora, segundo os gramáticos, o plural de sogro NÃO sofre metafonia. É uma exceção.”

Meu caro leitor tem alguma razão. Segundo a gramática do professor Evanildo Bechara e a do professor Rocha Lima, a palavra sogro não sofre metafonia no plural, ou seja, a vogal “o” mantém o som fechado (=“sôgros”).

Agora, veja o que dizem os professores Celso Cunha e Lindley Cintra na Nova Gramática do Português Contemporâneo: “Por vezes diverge, na formação desses plurais, a norma culta de Portugal e a do Brasil. É o caso, por exemplo, dos substantivos almoço, bolso e sogro, que, no plural, apresentam a vogal aberta em Portugal e fechada no Brasil.”

É como eu vivo repetindo: não é uma questão de certo ou errado, e sim de adequação. Na fala lusitana, a vogal é aberta (=”sógros”); no Brasil, falamos “sôgros”. Devemos é respeitar as variantes linguísticas.



O DESAFIO

Qual é a forma correta?



1º) alejado ou aleijado?

2º) bandeja ou bandeija?

3º) colisão ou colizão?

4º) coalisão ou coalizão?



Respostas: aleijado, bandeja, colisão e coalizão.
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MEIO ou MEIA? - Entenda quando ‘meio’ é numeral e quando é advérbio de intensidade - Advérbios - Sinônimos - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Entenda quando ‘meio’ é numeral e quando é advérbio de intensidade

MEIO  ou  MEIA?

1)    A palavra meio, quando significa “metade”, é numeral. Deve concordar com o substantivo a que se refere: “Bebeu meio litro de uísque”; “Bebeu meia garrafa de cerveja”; “Leu um capítulo e meio”; “Leu uma página e meia”; “É uma hora e meia”; “É meio-dia e meia (hora)”…

2)    A palavra meio, quando significa “mais ou menos”, é advérbio de intensidade. Os advérbios são palavras invariáveis (=não se flexionam em gênero e número): “A aluna ficou meio nervosa”; “Os clientes saíram meio satisfeitos”; “A atleta está meio cansada”; “Ela é meio poderosa”…

-> A dúvida

Pergunta do leitor: “Lendo recentemente um conto de Machado de Assis (Capítulo dos Chapéus), deparei-me com a seguinte frase: …foi à sala de visitas, chegou à janela meia aberta, viu… Pensei tratar-se de um erro de revisão, mas em um outro conto (Casa Velha), deparei-me com frase semelhante. Custa-me crer que Machado de Assis tenha cometido tal erro. Em que ocasiões pode meia ser usada? Meia ou meio cansada?”

Rigorosamente, segundo as regras da gramática tradicional, os advérbios não se flexionam (= sem feminino, sem plural): “ela está meio cansada” e “a janela está meio aberta”.

Não sei se houve erro de impressão ou se o grande Machado cometeu um erro gramatical. E não estou muito preocupado com isso. Já disse muitas vezes: não devemos reduzir fatos linguísticos a discussões simplistas de certo ou errado.

Não sou adepto da “teoria da exceção”. Respeito o fato de uma palavra ou alguma estrutura sintática ter sido citada ou usada por um ou outro autor. Isso não significa, entretanto, que eu também vá usar ou ensinar aos meus alunos.

Se ninguém diz que “ela está muita cansada ou pouca cansada” e que poucos dizem “meia cansada”, prefiro seguir a maioria: “ela está meio cansada”, porque não está “muito cansada” nem “pouco cansada”.

-> Outra dúvida

Outro leitor comenta: “Machado de Assis estava certo ao escrever ‘janela meia aberta’. Você não acha que ele quis dizer que a janela estava aberta pela metade ou então que tinha a metade aberta?”

Não é a primeira vez que leio essa interpretação. Pode até ser verdadeira, mas acredito mesmo que tenha havido o que alguns autores hoje chamam de “concordância atrativa” (= é feita por proximidade em vez de seguir a lógica gramatical). Isso significa que o advérbio “meio” estaria concordando com o adjetivo “aberta” devido à proximidade.

Isso explicaria também o caso do “meia cansada”. Aqui fica muito difícil sustentar a ideia de “metade”. Se a pessoa ficou “meia cansada”, certamente não ficou “metade” cansada.



ESTADIA ou ESTADA?

Sempre ensinei que estadia é “o período em que o navio fica no porto para carga e descarga” e estada é “o ato de estar, permanência”.

Sempre brinquei em minhas aulas: “quando entro num hotel e me desejam um boa estadia, eu me sinto um navio, mas…tudo bem. O importante é ser bem tratado durante a estada no tal hotel”.

Juro que é última vez que direi tal “gracinha”. Eu sei que o novíssimo Aurélio considera estadia sinônimo de estada, permanência. Sendo mais justo ainda: o dicionário Michaelis já dizia isso há mais tempo.

Isso significa, portanto, que estada e estadia, no sentido de “permanência”, são sinônimos. Para os navios, só vale a estadia.



ATERRIZAR ou ATERRISSAR?

O velho dicionário Caldas Aulete só registrava a forma aterrissar. No entanto, a forma aterrizar já está devidamente registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras, e por vários dicionários, entre eles o próprio Aulete digital, o Houaiss, o Michaelis e o Aurélio.

Aqui não há mais discussão. As duas formas são totalmente aceitáveis.



MAU-OLHADO ou MAL-OLHADO?

As duas palavras existem, mas apresentam significados diferentes:

a)    mal-olhado = adjetivo, é o “que não é bem visto, bem aceito; malvisto;

detestado, odiado” (Dicionário Michaelis).

b)    mau-olhado = substantivo, é a “qualidade que a crendice popular atribui

a certas pessoas de causarem desgraças àquelas para quem olham”.

Observação: o adjetivo mal-olhado não aparece no dicionário Aurélio, mas está registrado no dicionário Michaelis e no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL.
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O que é certo e o que é errado no português - Dicionário - Grafia - Neologismos - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



A complexa tarefa de decidir o que é certo e o que é errado no português

A PALAVRA EXISTE OU NÃO?

Quem lê esta coluna com certa frequência bem sabe como detesto reduzir fatos linguísticos a discussões simplistas do tipo certo ou errado. Outro tipo de pergunta muito frequente é se uma determinada palavra existe ou não. E aqui temos um problema bem interessante para resolver.

A pergunta pode parecer boba, mas eu quero entender melhor o que significa uma palavra não existir. É a palavra que alguém inventa mas ninguém usa nem aparece registrada em nossos dicionários ou seria aquela palavra que muita gente usa embora não esteja no dicionário? Se a resposta for a segunda opção, estaremos diante de um novo problema: qual dicionário?

Sabemos muito bem que, para o brasileiro em geral, quando se fala em dicionário, só pode ser o Aurélio. Isso não significa que seja o único ou necessariamente o melhor. Estou apenas constatando um fato. Eu mesmo nesta coluna tenho citado outros dicionários: Houaiss, Michaelis, Larousse, Globo, Caldas Aulete, Ruth Rocha, Antenor Nascentes… Por uma questão de justiça e honestidade intelectual, outras fontes devem ser pesquisadas e citadas. A verdade, no entanto, é que, para a maioria, na hora da dúvida, quem decide é o Aurélio.

Por causa disso, quero deixar um alerta: cuidado com as novas edições do Aurélio! As últimas edições trazem algumas novidades.

Vejamos o exemplo do verbo penalizar.

Sempre ensinei, porque assim aprendi, que penalizado não era sinônimo de punido. Segundo o dicionário Michaelis, penalizar é “causar pena ou dó a, sentir grande pena, sobrecarregar de modo penoso”. Assim sendo, uma pessoa penalizada só poderia ser aquela “que sentia muita pena de alguém ou de alguma coisa”: “Ela ficou penalizada diante da miséria humana”.

Alguns leitores me alertaram para o novíssimo Aurélio. É verdade. Lá está: “penalizar. 1. Causar pena ou desgosto a (…) 2. Infligir pena a ‘O juiz penalizou o time’. (…)”. Se alguém não percebeu, eu explico: “infligir pena a” significa “aplicar pena” ou, em outras palavras, PUNIR.

O nosso grande Aurélio libera, portanto, o uso de penalizar como sinônimo de punir. Confesso que tenho um pouco de dificuldade. Afinal, foram tantos anos… Vou continuar penalizado pelo sofrimento de tantos brasileiros e revoltado porque muitos safados ainda não foram punidos.

Prometo, por outro lado, não mais criticar quem usar penalizado em vez de punido. Quando alguém disser que o jogador foi penalizado com cartão vermelho, juro que não direi nada. Só pensarei baixinho: que coisa horrorosa!



DISPONIBILIZAR ou TORNAR DISPONÍVEL?

Certa vez recebi um e-mail de um ex-aluno, na verdade um participante dos meus cursos de redação empresarial para executivos. Ele me deixou o seguinte recado: “…lembro bem o senhor ter nos ensinado que não deveríamos usar o verbo disponibilizar porque não existia em nossos dicionários (…) fiquei surpreso pois o novíssimo Aurélio registra o nosso “amado” disponibilizar. Que devemos fazer?”

O ex-aluno e agora leitor tem razão. Os meus leitores já sabiam disso, pois já escrevi sobre esse caso.

O curso de que fala o nosso leitor foi para Auditores da Qualidade. Já faz mais de dez anos.

Nos meus cursos, quando analiso o uso de neologismos, sempre faço algumas observações:

1a) nada impede que um neologismo que hoje não aparece em nossos dicionários venha a ser devidamente “dicionarizado” (foi o que aconteceu com o disponibilizar);

2a) o fato de uma palavra não estar registrada em nossos dicionários não significa que estejamos proibidos de usá-la.

É interessante lembrar o caso da palavra “não conformidade”, até hoje sem registro algum, nem no novíssimo Aurélio. O meu querido ex-aluno deve estar lembrado do que ensinei: “Como pode um auditor da qualidade escrever um relatório de não conformidades sem usar a palavra não conformidade? Tenho a certeza de que a palavra estará presente em futuras edições de nossos dicionários”.

Isso significa que não sou contrário a um neologismo pelo simples fato de ele não estar no dicionário. Continuo a favor do uso técnico da palavra “não conformidade” (=descumprimento de um requisito especificado), embora ainda não esteja registrada em nenhum dicionário.

Quanto ao disponibilizar, apesar de aparecer nas últimas edições dos nossos principais dicionários, continuo não gostando. É modismo e é usado exageradamente. Não posso, é claro, considerar erro o uso do verbo disponibilizar. Não só porque já está devidamente dicionarizado, mas principalmente porque sou contrário a essa história de certo ou errado.

Além do mais, você se referiu ao verbo como “amado disponibilizar”. Quem sou eu para atrapalhar essa relação tão bonita? Se eu era o estorvo, sinta-se liberado. Pode externar livremente os seus sentimentos e use o disponibilizar à vontade. Só não abuse: você pode ficar tão enjoado quanto eu.



DÚVIDAS DOS LEITORES



TACHA  ou  TAXA?

TACHAR  ou  TAXAR  ou  TACHEAR?

TACHATIVO  ou  TAXATIVO?



TACHA = espécie de prego; ou mancha, defeito moral; ou tacho grande;

TAXA = tributo; ou razão de juro;

TACHAR = acusar, censurar, pôr defeito em (“Ele foi tachado de corrupto”);

TAXAR = fixar ou determinar uma taxa, um tributo (“Estes serviços não serão taxados pelo governo”);

TACHEAR = pregar tachas (preguinhos) em (“É um sofá todo tacheado”);

TACHATIVO (não há registro em nossos dicionários);

TAXATIVO = que taxa, que limita; restritivo; definitivo (“O diretor foi taxativo ao afirmar que…”).
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‘Pérolas’ cômicas atribuídas a jornalistas - Redundância - Significados - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Veja lista de ‘pérolas’ cômicas atribuídas a jornalistas

SERÁ VERDADE?

Passeia pela internet uma nova lista de “asneiras jornalísticas”. Não tem paternidade (como sempre) e as frases são atribuídas à imprensa portuguesa, o que não é verdade. Eu já conhecia metade dos casos. São quase os mesmos de outra lista que já foi parcialmente apresentada aqui na Aula Extra. Naquela lista, os exemplos eram atribuídos a jornais cariocas.

A falta de paternidade acaba permitindo afirmações duvidosas e imprecisas. Eu nem acredito que todas as frases da lista tenham sido publicadas por algum jornal, mas não deixam de ser interessantes. No mínimo, valem pela criatividade dos seus autores.

Vejamos:

1)    “Parece que ela foi morta pelo seu assassino.”

Ainda bem que não tem certeza!

2)    “O acidente pode ter sido no tristemente célebre retângulo das Bermudas.”

Não sei se é uma dívida geométrica ou geográfica…

3)    “O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos. Teme-se que haja vítimas.”

É que as vítimas não devem ser parentes de quem escreveu.

4)    “O acidente provocou uma forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido.”

Era um “veículo” bem popular, muito querido na região. Será julgado pelo Departamento de Trânsito e, se condenado, ficará preso no depósito municipal.

5)    “Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio.”

Só a princípio. No fim, vão descobrir que foi enchente.

6)    “O aumento da inflação foi de 0% em novembro.”

Foi um aumento semelhante ao do salário mínimo.

7)    “O presidente de honra é um septuagenário de 81 anos.”

Pior é aquele que pensa que sexagenário é o velhinho que ainda faz sexo.

8)    “Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça.”

E ficou de cabelo em pé.

9)    “As circunstâncias da morte do chefe de iluminação permanecem bastante obscuras.”

Porque as provas do crime já foram enterradas.

10) “A conferência sobre prisão de ventre foi seguida de um farto almoço.”

Logo após, houve uma grande corrida aos banheiros. Assim, foi possível pôr em prática as técnicas aprendidas na conferência.

11) “É uma bela peça musical, de onde parecia exalar toda a fria tristeza da estepe gelada. Foi executada com um calor magistral.”

Metade da orquestra ficou resfriada devido à violenta variação de temperatura.

12) “Apesar de a meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente.”

O sindicato dos meteorologistas ficou decepcionado com o tempo que não aderiu ao movimento de paralisação.

13) “Os quatro artistas formam um trio de talento.”

Deve ser o famoso quarteto “Trio los dos”, no qual cantava “solamente yo”.

Não sei distinguir entre o que foi realmente publicado e o que foi inventado. Importante é que diverte um pouco.

O próximo exemplo, porém, é verdadeiro. Um portal de notícias informou: “Bombeiro ajuda grávida a dar à luz por telefone”. É lógico que a ajuda é que foi por telefone, mas dar à luz por telefone poderia ser “algum avanço da ciência”…

O último caso ninguém me contou. Eu ouvi muito bem. Aconteceu há muito tempo numa transmissão de um jogo da seleção brasileira de futebol de areia, ou de “beach soccer” como preferia o comentarista que soltou a “pérola”: “O Neném começou a correr mais com a entrada do Júnior Negrão atrás”. E ele queria o quê?



CRÍTICA DO LEITOR

“Gostaria de chamar atenção para o correto sentido da palavra DESCRIMINAR, que na sua coluna foi explicada como “inocentar de um crime”. Inocentar é absolver. DESCRIMINAR significa “deixar de considerar crime um determinado ato que hoje é considerado como tal”. Portanto, correto não seria “o projeto queria descriminar o usuário de maconha”, e sim o projeto queria “descriminar o uso da maconha”.

O nosso leitor tem razão. Se prezamos o uso preciso das palavras, devemos “descriminar o uso, e não o usuário”.

Caso semelhante ocorre com o verbo CASSAR (=anular). Não se “cassa o prefeito”. O que se cassa é o mandato do prefeito.



DÚVIDA DO LEITOR E MINHA

ENFEZADO = CHEIO DE FEZES?

“Costuma-se usar a expressão ENFEZADO, quando queremos falar do nosso estado de aborrecimento. Não há nenhuma outra menção no Aurélio, mas fico me perguntando se a construção da palavra tem alguma relação com intestino cheio, prisão de ventre, que também nos dá o mesmo estado de ânimo, ou seja, nos deixa irritados, aborrecidos, ENFEZADOS. Alguma relação?”

Não é a primeira vez que ouço falar dessa história: ENFEZADA estaria a pessoa com prisão de ventre, ou seja, cheia de FEZES. Pode até ser verdade, mas os nossos dicionários não mencionam essa possível relação.

Só registram ENFEZADO como “aborrecido, irritado”.
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Origem do modismo ‘a nível de’ e saiba como evitá-lo - ANTE AO EXPOSTO ou ANTE O EXPOSTO? - UM ÓCULOS ou UNS ÓCULOS? - EXOTÉRICO ou ESOTÉRICO? - Grafia - Modismos - Plural - Preposições - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Entenda a origem do modismo ‘a nível de’ e saiba como evitá-lo

A NÍVEL DE  ou  EM NÍVEL?

A expressão “a nível de” é um dos piores modismos criados nos últimos tempos. Além da preposição “a”, que deve ser substituída por “em”, somos obrigados a conviver com o maldito “nível” em situações absurdas, pois não há níveis: “A nível de debate…”; “…a nível de relatório…”; “…a nível de sentimento…”; “…a nível de espiritualidade…”.

É interessante observar que quem usa a expressão “a nível de” ainda faz pose: deve achar que está falando um português “belíssimo”.

A expressão EM NÍVEL DE é correta, mas só pode ser usada se houver “níveis”: “O problema só pode ser resolvido em nível de diretoria”; “A situação será analisada em nível federal”.

Quanto ao mar, é aceitável dizer “ao nível do mar” ou “no nível do mar”.



ANTE AO EXPOSTO ou ANTE O EXPOSTO?

Carta do leitor: “É comum em sentenças dos juízes usar a forma ‘ante ao exposto, julgo procedente a ação’. Os juízes portugueses também usam o ATÉ: ‘…até ao fim”. Já consultei um professor, e ele disse-me que o correto é ‘ante o exposto’. Segundo ele, é que não se pode usar duas preposições.”

Eu também não gosto de usar duas preposições: “ante ao exposto”, “até ao fim”, “para com”. “por entre”, “por sobre”…

O problema é usarmos o velho conceito de certo ou errado. A verdade é que, em Portugal, é frequente o uso de duas preposições: “ante ao exposto”, “ir até ao fim”. Não é, portanto, uma questão de estar errado. É, a meu ver, um problema de estilo, de uso.

Assim sendo, a minha preferência é:

“Ante o exposto, julgo procedente a ação”;

“Ele foi até o fim”;

“É preciso ter respeito pelo adversário” (em vez de ‘para com o adversário’);

“Passou a bola entre as pernas” (e não ‘por entre as pernas’);

“Chutou a bola sobre o travessão” (e não por sobre o travessão).

UM ÓCULOS ou UNS ÓCULOS?

Carta do leitor: “Pior do que dizer ‘um óculos’, que se ouve de conceituado show-man (perdão!) da televisão e equipa um médico em hospital dos Estados Unidos, é, penso, o abuso de expressões da língua inglesa, sem aspas, de permeio com outras tantas do nosso vernáculo.”

Li num bom jornal: “O médico coloca um capacete equipado com um óculos especial que …”

A palavra óculos só apresenta forma plural. É o mesmo caso de “núpcias, pêsames, parabéns…” O certo, portanto, é “…equipado com óculos especiais…”. Não se deve dizer “o óculos escuro quebrou”, e sim “os óculos escuros quebraram”.

EXOTÉRICO ou ESOTÉRICO?

Vejamos o que diz o dicionário “Aurélio”:

EXOTÉRICO: “Diz-se de ensinamento que, em escolas da antiguidade grega, era transmitido ao público sem restrição, dado o interesse generalizado que suscitava e a forma acessível em que podia ser exposto, por se tratar de ensinamento dialético, provável, verossímil.”

ESOTÉRICO: “Diz-se do ensinamento que, em escolas filosóficas da antiguidade grega, era reservado aos discípulos completamente instruídos; todo ensinamento ministrado a círculo restrito e fechado de ouvintes; compreensível apenas por poucos, obscuro, hermético.”

ESOTERISMO: “1. Doutrina ou atitude de espírito que preconiza que o ensinamento da verdade (científica, filosófica ou religiosa) deve reservar-se a número restrito de iniciados…; 2. Designação que abrange um complexo conjunto de doutrinas práticas e ensinamentos de teor religioso e espiritualista, em que se confundem influências de religiões orientais e ciências ocultas, associadas a técnicas terapêuticas, e que, supostamente, mobilizam energias não integrantes da ciência e que visam a iniciar o indivíduo no caminho do autoconhecimento, da paz espiritual, da sabedoria, da saúde, da imortalidade…”

Respondendo diretamente às perguntas dos leitores:

1o) Realmente existem as duas palavras. A diferença básica é que ESOTÉRICO refere-se a ensinamento para grupos restritos, e EXOTÉRICO para o público em geral, sem restrições.



DESAFIOS

1º) Qual é a forma correta?

a) A reunião será amanhã  AS  ou  ÀS 8h ?

b) A reunião será  A  ou  À  partir das 8h ?

c) A reunião só começará após  AS  ou  ÀS 8h ?

Respostas:

a) A reunião será amanhã às 8h;

b) A reunião será a partir das 8h;

c) A reunião só começará após as 8h.



2º) Se pousar na terra é aterrissar ou aterrizar, quero saber como seria:

a) pousar no mar;

b) pousar na Lua.

Respostas:

a) amerissar

b) alunissar.
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Diferenças entre palavras parecidas - Conserto x concerto - TAXAR x TACHAR - SESSÃO x SEÇÃO x CESSÃO - Grafia - Verbos - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Conserto x concerto: entenda as diferenças entre palavras parecidas

Esta coluna continua preocupada com o correto emprego das palavras. O assunto de hoje são as palavras homônimas homófonas (=iguais na pronúncia, diferentes na grafia e no significado) e as parônimas (=parecidas na forma e diferentes no significado).

Aqui estão os 15 casos mais citados pelos nossos leitores. Todos querem saber qual é diferença entre…



1)    CONSERTO = correção, reparo – “Consertam-se sapatos”;

CONCERTO = sinfonia, harmonia – “O concerto será no Municipal”;



2)    TAXAR = tributar, pôr uma taxa – “Estes serviços serão taxados”;

TACHAR = rotular, considerar – “Foi tachado de corrupto”;



3)    SESSÃO = reunião – “Começou a sessão do júri”;

SEÇÃO = parte, divisão, departamento – “Está na seção de vendas”;

CESSÃO = ato de ceder – “Fez a cessão dos seus bens”;



4)    CASSAR = anular – “Querem cassar o mandato do prefeito”;

CAÇAR = apanhar, pegar – “Querem caçar o animal”;



5)    COZER = cozinhar – “Gosta de ovos cozidos”;

COSER = costurar – “Precisa coser a camisa rasgada”;



6)    SERRAR = cortar – “Os galhos foram serrados”;

CERRAR = fechar – “Ficou com os olhos cerrados”;



7)    INCIPIENTE = iniciante, o que está no início – “Era um projeto incipiente”;

INSIPIENTE = não sapiente, ignorante, sem sabedoria – “Era um argumento insipiente”;



8)    RATIFICAR = confirmar – “O presidente vai ratificar a nossa decisão”;

RETIFICAR = corrigir – “É necessário retificar o seu erro”;



9)    DESAPERCEBIDO = não apercebido, desprovido, desinformado – “Ficou desapercebido” ;

DESPERCEBIDO = não percebido, não observado – “O juiz passou despercebido”;

Alguns dicionários já consideram DESAPERCEBIDO sinônimo de DESPERCEBIDO (= não despercebido).



10) MANDATO = representação, poder de mando – “Cassaram o seu mandato”;

MANDADO = ordem judicial – “Impetrou um mandado de segurança”;



11) TRÁFEGO = de trânsito, movimento – “O tráfego está muito intenso nesta rua”;

TRÁFICO = comércio – “O tráfico de drogas está cada vez maior”;



12) DESCRIÇÃO = ato de descrever – “Foi fazer a descrição do cenário”;

DISCRIÇÃO = qualidade de quem é discreto – “Agiu com muita discrição”;



13) DESTRATAR = tratar mal – “Foi destratada em público pelo marido”;

DISTRATAR = romper um trato – “Não querem mais cumprir o contrato. Vão assinar um distrato”;



14) INFRINGIR = transgredir, violar, desrespeitar – “Está infringindo a lei”;

INFLIGIR = aplicar, impor – “Está infligindo um castigo”;



15) PRESCREVER = receitar ou perder a validade – “O médico prescreveu este remédio”, “O prazo já prescreveu”;

PROSCREVER = banir, expulsar – “Ele foi proscrito da cidade”.



GOSTAVA  ou  GOSTARIA?

Pergunta do leitor : “Eu gostava muito de conhecer o Brasil” e “Eu gostava muito de ir mas não posso”. A conjugação do verbo está correta?”

O nosso problema é o de sempre: querer reduzir tudo a uma simples questão de certo ou errado.

O uso do verbo no pretérito imperfeito do indicativo (=gostava) em vez do futuro do pretérito do indicativo (=gostaria) é muito comum em Portugal. É uma característica do português falado em Portugal. Não podemos considerar erro. Esse fato linguístico é abonado por muitos autores da nossa literatura.

É, portanto, uma questão de adequação.

No Brasil, o mais frequente é usarmos o verbo no futuro do pretérito do indicativo: “Eu gostaria muito de conhecer o Brasil”, “Eu gostaria muito de ir mas não posso”.

Usamos o pretérito imperfeito do indicativo para indicar fatos habituais no passado: “Na minha infância, eu gostava de visitar meus avós”.



OUTRA DÚVIDA



Deu num bom jornal: “Se o governo deixar correr solto (…) assistir impávido a cada um dos partidos que o apoiam escolher um candidato…”

O leitor tem razão: estamos confundindo impávido com impassível.

IMPÁVIDO significa “que não tem pavor, destemido” e IMPASSÍVEL é “ausência de paixão, de sentimento, indiferente à dor, que não padece”.

Portanto, o autor queria dizer “assistir impassível”, ou seja, “sem paixão, sem ação, sem sofrimento, indiferente”.
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Maneira correta de empregar o pronome reflexivo ‘se’ - Pronomes - Significados - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Saiba a maneira correta de empregar o pronome reflexivo ‘se’

Quem lê esta coluna com certa frequência já sabe. Estou há mais de um mês tentando organizar a minha correspondência, por isso não estranhe o fato de eu fazer alusão a uma carta antiga ou escrever a respeito de alguma pergunta já respondida. É que o número de leitores novos, graças a Deus, é muito maior do que eu imaginava.

O assunto de hoje é bem interessante. Por meio de fax, mensagens eletrônicas ou cartas, vários leitores querem saber se o verbo “suicidar-se” é um pleonasmo ou não.

O argumento basicamente é o seguinte: o verbo “suicidar-se” vem do latim “sui” (”a si” = pronome reflexivo) + “cida” (=que mata). Isso significa que “suicidar” já é “matar a si mesmo”. Dispensaria, dessa forma, a repetição causada pelo uso do pronome reflexivo “se”.

Quanto à etimologia (=origem da palavra), os leitores têm razão.

Já que falamos em etimologia, é importante lembrar que as palavras terminadas pelo elemento latino “cida” apresentam essa triste ideia de “matar”: se o formicida mata formigas, se o inseticida mata insetos e se o homicida mata homens, o suicida só pode matar a si mesmo.

Não devemos, entretanto, fazer confusões. Existe uma pelo menos que, em vez de matar, salva muitas vidas: é a Nossa Senhora de Aparecida. A nossa padroeira, graças a Deus, tem outra origem.

Voltando ao verbo “suicidar-se”. Na verdade, os nossos leitores só têm razão quanto à origem da palavra. Se observarmos o uso contemporâneo do verbo “suicidar-se”, não restará dúvida: ninguém diz “ele suicida” ou “eles suicidaram”. O uso do pronome reflexivo “se” junto ao verbo está consagradíssimo. É um caminho sem volta. É um pleonasmo irreversível.

O verbo “suicidar-se” hoje é tão pronominal quanto os verbos “arrepender-se”, “esforçar-se”, “dignar-se”… Da mesma forma que “ela se esforça” e “eles se arrependeram”, “ela se suicida” e “eles se suicidaram”.

Diferente é o caso do verbo “autocontrolar-se”. O prefixo “auto” vem do grego e significa “a si mesmo”. Existe o substantivo “autocontrole” (=controle de si mesmo”), mas não há registro do verbo “autocontrolar-se”. Se você quer “controlar a si mesmo”, basta “controlar-se”.

É interessante, porém, saber que os nossos dicionários registram “autocriticar-se”, “autodefender-se”, “autodefinir-se”, “autodenominar-se”, “autodestruir-se”, “autodisciplinar-se”, “autoenganar-se”, “autogovernar-se”…

Resumindo: o uso correto do verbo é SUICIDAR-SE.



2) “Estamos a VOSSO  ou  SEU dispor”?

Os pronomes de tratamento (= senhor, Vossa Senhoria, Vossa Excelência…) fazem concordância na 3a pessoa. Portanto, o correto é “estamos a seu dispor”.

Não esqueça que Vossa Senhoria e Vossa Excelência são iguais a você (=3a pessoa), e não a vós (2a pessoa do plural).

Observe o exemplo:

“Vossa Senhoria deve comparecer à reunião do próximo dia 20. Ficamos a sua disposição para mais esclarecimentos.”



3) ALGUM ou NENHUM?



Deu na Aula Extra: “…não faça restrição alguma…”, “…palavra sem registro algum”.

Comentário de um leitor: “Meu velho professor de Português já ensinava nos anos 30 que é correto o uso de duas negativas em uma oração, assim: não vou não, não tenho dinheiro nenhum.

Não seria melhor, e até mais bonita, a forma sugerida pelo meu  professor?”

Eu também não considero erro o uso de duas negativas. São inevitáveis frases do tipo “não fiz nada” e “não vi ninguém”.

Entretanto, se for possível, prefiro evitar a repetição de negativas. Em resumo:

1o) Não considero errada a frase “não tenho dinheiro nenhum”;

2o) Prefiro não repetir as negativas: “não tenho dinheiro algum”;

3o) Prefiro mesmo é “ter algum dinheiro”!!!



4) HAJA VISTA ou HAJA VISTO?

Deu na Aula Extra: “Foi demitido haja vista o problema surgido.”

Leitor protesta: “O senhor escreveu que não existe a forma haja visto. Mas haja visto não é o pretérito perfeito do subjuntivo, formado pelo subjuntivo do verbo haver (haja) e o particípio do verbo ver (visto)? O particípio corresponde a um adjetivo e flexiona-se. No exemplo acima o particípio deve concordar com a palavra problema, que é masculina. Então, acho que haja visto pode ser empregado corretamente na frase acima.”

Você tem razão quando diz que haja visto pode ser a forma composta do verbo ver: “Embora o comentarista haja visto (=tenha visto) o lance várias vezes, a dúvida permaneceu.”

Não devemos, entretanto, confundir os casos. Na frase analisada nesta coluna, a expressão “haja vista” significa “tendo em vista, devido a, por causa de”. Não é verbo. É uma expressão tão invariável quanto “tendo em vista”: “Foi demitido haja vista (ou tendo em vista) o problema surgido”.
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Erros gramaticais em propagandas famosas - Crase - Grafia - Publicidade - Matéria Português - Dicas de Português - Língua Portuguesa



Conheça erros gramaticais em propagandas famosas

Vem pra Caixa você também.

Você quer um desconto? Faz um 21!

Obedeça sua sede.

O primeiro pagamento só daqui 45 dias.

Quem lê, sabe.

Vota Brasil.

Vamos dividir a resposta em três partes:

1a) Nos dois primeiros exemplos, encontramos o mesmo problema. É um vício de linguagem muito característico do português falado no Brasil. É o chamado duplo tratamento (=mistura de 2a com 3a pessoa).

O pronome “você” vem de “vossa mercê”. Trata-se de um pronome de tratamento. Faz concordância na 3ª pessoa (=você vem, você faz, você fala…), embora se refira ao receptor da mensagem (substitui o pronome “tu” = 2ª pessoa do discurso).

A mistura ocorre na hora de usarmos o verbo no imperativo afirmativo. Enquanto a 2ª pessoa vem do presente do indicativo sem o “s” (=vem tu, faze ou faz tu, fala tu), a 3ª pessoa vem do presente do subjuntivo:

que você venha – venha você;

que você faça – faça você;

que você fale – fale você.

Assim sendo, num texto formal em que se fizesse necessário o uso culto da língua portuguesa, deveríamos dizer:

Venha para Caixa você também;

Você quer um desconto? Faça um 21.



2a) Nos exemplos 3 e 4, houve a omissão indevida da preposição “a”. O verbo “obedecer” é transitivo indireto. Se você realmente obedece, sempre deverá obedecer “a” alguma coisa. A mesma propaganda diz que “a imagem não é nada”. Pelo visto, para os autores da frase, a preposição também não é. O certo seria “Obedeça a sua sede”. O uso do acento da crase, nesse caso, é facultativo.

No exemplo 4, também está faltando a preposição. Tudo é “daqui a”: “O primeiro pagamento só daqui a 45 dias”.



3a) Os dois últimos exemplos já foram comentados nesta coluna. Evitando voltar às velhas discussões sobre o assunto, repito apenas a minha opinião.

Em “Quem lê, sabe”, não deveríamos usar a vírgula, pois separa o sujeito do predicado: “Quem lê sabe”; “Quem bebe Grapete repete”.

Em “Vota Brasil”, falta a vírgula. O termo “Brasil” não é o sujeito da oração. É vocativo. A forma verbal (= vota) está no imperativo. Deveríamos escrever: “Vota, Brasil”.



2) CRASE IMPOSSÍVEL

Leitor quer saber a minha opinião a respeito do excessivo uso do acento da crase numa única página da internet: “…ainda à partir da segunda metade (…) só tende à esquentar (…) surpreendeu à todos (…) rodando à 1,5GHz (…) melhora o suporte à CD (…) suporte à HTLM moderno (…) rodando à 433MHz e 466MHz…”

O nosso leitor tem inteira razão. O autor da página não acertou uma sequer. Em todos os casos não ocorre a crase porque não há artigo definido. Temos apenas a preposição “a”.

Não esqueça que é impossível haver crase:

1o) antes de verbo: “a partir da segunda metade”, “tende a esquentar”;

2o) antes de palavras masculinas: “surpreendeu a todos”, “suporte a HTLM moderno”.



3) MEGA SENA ou MEGA-SENA ou MEGASSENA?

Carta de leitor: “Insisto com o problema do mega: mega-sena, mega sena, megasena ou megassena? Há meses aguardo uma explicação e já estou desconfiado de que não tenho resposta justamente por causa da insistência. Puxa, lá vem de novo aquele cara chato com a questão da megassena. Tudo indica que esta seja a forma correta, mas a dúvida permanece.”

Só vou responder devido à sua insistência, pois considero essa discussão um caso perdido.

O elemento “mega”, segundo o novo acordo ortográfico, só deve ser usado com hífen se a palavra seguinte começar por H ou vogal igual à última do prefixo: mega-avaliação, mega-hospital…

Nos demais casos, é sempre usado sem hífen, “tudo junto” como se diz popularmente: megacéfalo, megaevolução, megafone, megassismo, megawatt, megaevento, megaempresário…

Assim sendo, deveríamos escrever “megassena”. Por ser uma marca, torna-se um caso perdido, ou seja, não tem volta.

Outro problema é a necessidade do “ss” para manter o som do “esse”. Há muito tempo aprendemos que um “s” entre vogais representa o som do “zê”.

Se isso fosse respeitado, escreveríamos “telessena”, “aerossol”, “Mercossul”…
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